“O arquivo” de Victor Giudice

E tem surpresa melhor que um encontro literário despretensioso? Li um conto hoje (já digo que de 1972) que me fez sorrir e pensar no quanto o insólito na ficção é genialmente revestido de crueldade. Crueldade esta que tem batido, insistentemente, à porta de todos nós (ou “na porta”, dependendo da intensidade ou desespero com que se analisa a atual conjuntura).

Descobri que esse conto foi narrado pelo Antonio Abujamra, no saudoso “Contos da Meia-Noite” da TV Cultura (aqui!). Eu pedia para minha mãe gravar os episódios desse programa (nada de Netflix com todas as temporadas de uma só vez, felizmente!), visto que eu nunca estava em casa nesse horário, pois estava no segundo ônibus, dos três que eu deveria pegar para voltar da faculdade para casa. Porém, esse conto eu não conhecia! Grata surpresa, grata leitura, grata lembrança desses tempos de faculdade e do programa. Ei-lo, na íntegra.

O ARQUIVO

No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Pequena vitória ciclística

Não é uma “ideia fixa” nos moldes machadianos, mas vou falar de novo de bicicleta, enquanto as postagens sobre outros assuntos continuam no rascunho (tenho rascunhos de 2010, só pra dar uma ideia do que eu digo!) e o acontecimento ainda está dentro do mês.

A condição que me impus para a vinda da Nina (minha Caloi City Tour) era a de utilizá-la com frequência, então eu estabeleci a meta de andar 100km por mês. Quem anda de bicicleta sabe que esse número é ridiculamente baixo, mas para mim equivale a um Tour de France, tamanha a dificuldade que enfrento para conseguir me dar esse presente. Mas, isso é tema pra outro post.

Aliada a essa meta, eu tinha também o desafio de aprender a pedalar pela cidade, afinal eu era ciclista de quarteirão em bairro residencial da periferia. Mesmo com a companhia do meu bike anjo (oi, Hermes!) e com todas as instruções dele, eu tive de me esforçar bastante para não ter medo e entender meus deveres e direitos utilizando esse meio de locomoção, quando comecei a circular pela cidade. Do meu aprendizado, no “estágio supervisionado”, ficaram os seguintes itens:

1- Nunca andar pela calçada nem na contramão. A bicicleta segue o fluxo dos carros e calçada é o local do pedestre. E a lei é clara em dizer que o veículo maior PROTEGE o menor e todos protegem o pedestre. Curioso como desde sempre, a “lei da selva” é inversamente proporcional e dita que o maior INTIMIDA o menor e o pedestre que se salve, se puder (eu, por exemplo, quando criança, tive uma fratura tripla no tornozelo, por ter sido atropelada em cima da calçada).

2- Sempre usar os equipamentos de segurança: capacete, iluminação dianteira e traseira. Além de ter sempre um kit de ferramentas e remendo (confesso que ainda não aprendi a lidar com um pneu furado, mas o kit está lá!).

3- Eu devo e posso ocupar a faixa da direita (não na guia, local mais perigoso e propenso a acidentes), de forma assertiva, com atenção redobrada para as investidas dos carros. Interessante que quanto melhor a gente ocupa esse espaço, menos chance do carro dar as perigosas fechadas.

4- Não usar fone de ouvido ou celular durante o pedal (risco alto, proibido e desnecessário) e sempre sinalizar as conversões com o braço.

5- O ciclista deve circular pela ciclovia, quando ela existir, mas pode optar pela via com os carros, caso haja problemas na circulação da ciclovia, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro. Caso aconteça de um ciclista estar na via em lugares em que há ciclovia, pode acreditar que houve uma ponderação para isso: buracos; segurança; necessidade de fazer alguma conversão logo a frente; fluxo grande de pedestres na ciclovia; fluxo grande de pessoas em ritmo de passeio (menos de 20km/h) e/ou com variados meios de transporte diferentes e que deixam o trecho de ciclovia inseguro; necessidade de andar em uma velocidade acima da permitida na ciclovia etc… No trânsito, esses tipos de ponderação sempre ocorrem, quer estejamos no papel do pedestre (quando opta por andar na rua ou atravessar num local sem faixa) ou de motorista (passar no farol vermelho de madrugada num local perigoso, por exemplo)… 😉

Estou contando tudo isso para mencionar a minha pequena vitória na última sexta-feira, dia 18. Eu fui, com a Nina, a um evento no Sesc Pinheiros. Sozinha, com ameaça de chuva e à noite. Tive muito mais coragem do que imaginei que teria, na verdade ela simplesmente surgiu durante o pedal (sim, a vontade de chegar lá para assistir à mesa-redonda de poesia marginal feminina era muito grande!) que foi um marco para mim.

Na ida, fui pelo mesmo caminho que já estou acostumada: Berrini na faixa da direita. Pela primeira vez, talvez porque estivesse sozinha, um cara de um carro incomodou-se demais com a minha presença (detalhe, eu estava sozinha na direita, ele estava na faixa da esquerda, sozinho também) e ficou gritando “Moça, vai pra ciclovia!”. Passei mentalmente todo um checklist da minha situação: capacete, luzes acesas, pista livre, ocupação correta da pista, ciclovia cheia de bikes amarelas e patinetes, chuva no meu encalço, velocidade de 31km/h. Logo que ele não podia me mandar pro fogão mesmo (ir, pra algum lugar, só se for pra ser “gauche na vida”), pedalei ainda mais forte, passei por ele no semáforo e continuei meu caminho, pois o tempo urgia e as gotas já estavam começando a cair. Ao desencanar dos gritos, perdi-o de vista e VRUMMMMMMMMMMMMMMM.

Estava muito quente, lá pelos lados do Shopping Iguatemi as poucas gotas já haviam cessado, a ciclovia estava menos tumultuada e o destino quase chegando. Deixei a Nina no bicicletário do Sesc, tranquei-a, tirei as luzes, a água, o velocímetro digital, verifiquei tudo e corri pro evento (ritual básico). Sim, eu fiquei suada, mas como era na praça externa, logo o ventinho da noite me refrescou. Sentei, fiquei segurando a mochila molhada de suor, o capacete e sem conseguir tirar um sorriso idiota do rosto, estava lá pegado no meu rosto e não saía!

O evento acabou tarde: 22h30 e eu tinha de fazer o caminho de volta. Satisfação 1: conseguir subir a rampa do estacionamento pedalando. É muito inclinada, muito mesmo, e eu consegui. Satisfação 2: fazer o caminho de volta em segurança e sem esmorecer as pernas para conseguir chegar. No trajeto, ciclovia já quase vazia, nenhuma garota no caminho de volta.

Se eu senti medo? Até senti, principalmente no trecho da ciclovia que sai da Rua Funchal, atravessa a Bandeirantes para entrar na Berrini. Lugar sinistro e que eu SEMPRE faço pela rua. No entanto, para minha alegria, não fiquei presa nisso, fui sentindo uma sensação boa de liberdade e atitude. Confesso que cheguei a sorrir me achando a Lara Croft na cena inicial do novo Tomb Raider (hummm… gostaram da referência de cultura de massa?).

Claro que só faltava eu ser a Lara Croft, ter e saber andar numa bike fixa, ser courier em Londres, estar na disputa da raposa ao som de “Powerz” de Avelino e remixado pelo Junkie XL (ah, Google e Hermespidia). Quase nada de diferença, mas o sorriso no rosto de satisfação era o mesmo! Se estiver preparado para assistir a uma cena de ciclismo urbano e selvagem, é só dar o play na cena mencionada!

O fato é que esse acontecimento relativamente banal me fez sorrir e manter o sorriso, me fez sentir a liberdade e a coragem, me fez sentir o coração mais leve… O coração leve, as pernas firmes, o sorriso no rosto, a cabeça nas nuvens e, por esses instantes, cheguei a sentir a leveza daquele que supera todos os seus problemas, todas as contendas emocionais e dá um basta naquilo que não serve mais. É só gratidão que chama isso tudo, certeza.

“Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.”

 

Dia de comemorar a insubordinação mental: parabéns, Drummond!

31 de outubro de 1902 nascia um dos poetas mais incríveis de todos os tempos: Carlos Drummond de Andrade. Nada mais propício para prestigiar quem deixou um legado que, felizmente, permite ao leitor pensar criticamente – e, quiçá, chegar à insubordinação mental (“piada” biográfica) -, que reproduzir um poema icônico: A flor e a náusea, do livro A rosa do povo (1945).

Ouviu o poema? Mas, ouviu bem mesmo? Tem certeza? Analisou os versos? Então, se isso aconteceu, fica a certeza de que “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Drummond que é Drummond, que publicou isso, assistindo ao horror da 2ª Guerra Mundial diz que uma flor nasceu, resta-me observar no cotidiano flores nascendo em meio à náusea atual.

 

 

Sutilezas do Bruxo do Cosme Velho

Quando eu comentei que minha segunda não-recomendação de leitura foi “Dom Casmurro”, eu não completei dizendo que também li essa obra com interesse e bom humor. Ao contrário do “Vidas Secas”, no qual eu chorei pela aridez humana, neste eu ri. Pois é, ri. Quem me conhece, sabe que tenho um, vamos dizer, “humor francês” em obras cômicas. 

Talvez tenha por meio da leitura de “Dom Casmurro” quem primeiro me ensinou que posso considerar algumas situações engraçadíssimas (de tão ridículas), sem gargalhar. Aperfeiçoei essa apreciação pela ironia, quando li “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e talvez tenha sido contagiada pela ideia fixa de Brás, por isso não desgrudo o pensamento de um capítulo incrível do livro. 

O capítulo pelo qual ando obcecada chama-se “O vergalho” (LXVIII).

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

— Meu senhor! gemia o outro.

— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei… Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

— É, sim, nhonhô.

— Fez-te alguma coisa?

— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

Alguns itens para reflexão:

  1. VERGALHO: 1. Membro genital do boi ou do cavalo, depois de cortado e seco. 2. Chicote; azorrague. (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa);
  2. A obediência de Prudêncio, mesmo não sendo mais escravo do pai de Brás;
  3. “um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro.” Transmitir aquilo pelo qual passou ou reproduzir um comportamento que admirava, pois não se reconhecia mais como negro?;
  4. Prudêncio era dono do escravo e escravo voluntário?;
  5. Será que ainda existem situações análogas ao do Prudêncio nos dias de hoje? Será? Será? Será? #ironia;
  6. Hipóteses sobre quem seria esse maroto sutil;
  7. Admirar a construção da ironia em vários pontos (é de fazer suar os olhos!), assim como o fato que esse poderia ter sido um capítulo alegre, assim como uma infinidade de reflexões terem sido perdidas.
  8. Observar que é um capítulo bem curto e despretensioso pra composição da história, o que certamente não foi falta de encadeamento narrativo.

 

O fascinante da ironia é que ela se torna atemporal nas mãos de um bruxo, ainda mais se for do Cosme Velho e ainda se chamar Machado de Assis.

 

Dia Nacional do Livro – 29 de outubro

Hoje, comemora-se a chegada dos livros portugueses para compor a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Aliás, conhecê-la é um item que ainda não eliminei da minha lista e espero poder resolver essa pendência logo.

 

Quando me disseram que Vidas Secas era um livro horrível e chato, eu duvidei e fui lê-lo. Isso aconteceu no meu Ensino Médio, quando a escola para a qual eu me mudei tinha biblioteca. Lembro-me do quão abilolada fiquei ao conhecer esse espaço e não sabia para qual lado me virar ou como escolher um livro, apesar do coração batendo forte e da emoção de estar lá.

Eu vinha de uma escola pública que não tinha biblioteca (até hoje não tem) nem aula nem matéria, não havia respeito ou bem-estar, quase uma não-escola. Ainda hoje é um local sombrio e caindo aos pedaços. Afinal, criada na gestão PDS, abandonada pela gestão PMDB e enterrada na gestão PSDB, não haveria como estar em uma situação diferente. E pra não dizer que não falei das flores, posso dizer que minha permanência nessa escola não foi de toda perdida: um dia consegui ler um livro que estava jogado numa sala empoeirada, o Peter Pan na narrativa moldura de Monteiro Lobato e tive contato com o Movimento Punk (eu conto um pouco nisso na minha memória de leitura, aqui). Era com essa imensa bagagem que eu chegava à escola que tinha biblioteca.

Os não recomendados foram “Vidas Secas” e “Dom Casmurro”, ambos intragáveis, de acordo com a opinião dos demais estudantes. Mesmo sem bagagem de leitura, não acreditei no que me diziam e resolvi saber por mim mesma. Mergulhei em “Vidas Secas” e quase acabei com a aridez daquela terra com as minhas lágrimas.

Lágrimas de indignação, diga-se de passagem. Pela história? Sim. Mas também por todos aqueles que disseram o que disseram sobre o livro. Como assim, as pessoas tinham lido e não tinham tido, ao menos, empatia com aquela situação extrema da ausência de voz do ser humano? Chorei por não conseguir entender a aridez daquelas “vidas” e mentes que não tiveram o mínimo discernimento para a narrativa.

Mal sabia eu que esse tipo de situação seria muito mais corriqueira do que eu gostaria que fosse (na verdade, cada vez mais comum!). Talvez tenha sido nesse momento que eu tenha passado da fase de “viajar para outros lugares” para a fase “me colocar no lugar do outro”. Talvez também, nesse momento, o velho Graça tenha me salvado da seca que assola cérebros e corações. Talvez por isso eu esteja pensando tanto nesse livro nos últimos dias… Ontem, ao sair com ele, segurava-o com força, pois o medo de não poder mais discutir sobre um livro desse em sala de aula, um respeitável Sr. Livro de 80 anos, pareceu-me um grande perigo.

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Depois que a leitura do livro “Meninos sem pátria” do Luiz Puntel ter sido “suspensa” no colégio (aqui, aqui e, boa notícia, aqui), de amiga próxima em colégio humanista de elite ter tido a escolha de um conto não ter sido aprovada pela coordenação (acusado de “racismo inverso”, sendo que a cor da personagem nem foi descrita), dá pra imaginar que ler “Vidas Secas” e analisar em aula seria motivo mais que suficiente para ser filmada e denunciada como “doutrinação comunista” no celular divulgado ontem à noite, como forma de garantir uma escola sem partido…

O jeito será encontrar, cada vez mais, conhecimento (que é força) e sabedoria (que é  segurança) nas páginas dos livros. E, se eu não acreditar que livro possa combater a barbárie, é melhor mudar de profissão e ser uma hater profissional (olha que paga mais que as escolas públicas estaduais, sem precisar estudar, só vomitar asneiras!) ou uma exímia manipuladora de Photoshop para fazer montagens incríveis ou memes impagáveis. Enquanto isso não acontece, vou ler para não acreditar em tudo que me dizem no mundo virtual.

Parabéns ao Dia Nacional do Livro, espero que ele possa ser a única arma a ser usada daqui em diante!

 

Er Ist Wieder Da… Você sabe quem!

… ou simplesmente “Ele está de volta” (2015), filme alemão do diretor David Wnendt, baseado no livro homônimo de Timur Vermes. Pensa na mistura entre um riso nervoso e um soco no estômago… Conseguiu imaginar? É mais ou menos isso o que essa história causa.

É ficção? Sim, é. É realidade? O pior é que sim! A situação insólita do Führer saindo de seu Bunker no meio de Berlin no ano de 2014 não parece nenhum pouco absurda em comparação com o sucesso midiático dele e as entrevistas REAIS com uma população que concorda e aprova tudo o que ele diz. Como o perspicaz Sherlock já dizia, a ficção é uma pálida, mas muito pálida representação da realidade.

Impressionante como em poucos dias, Hitler já consegue fechar um panorama econômico e político da Alemanha. Mais impressionante ainda como ele se encanta com a nova arma que ele tem para propagação de ideias: a mídia. Cômico como até ele considera ridículos os neofascistas (ah, não me diga!) e trágico como ele propõe algo ainda mais cruel.

E todos riem, riem, riem. Consideram piada uma mimese histórica que, na verdade, não passa de uma representação catártica de tudo aquilo que as pessoas, quando têm uma oportunidade, conseguem colocar para fora. Há pouco tempo, eu acreditava que a sociedade estava evoluindo (sim, acreditava nisso!), pois determinados comportamentos já não eram mais vistos e/ou tolerados. O filme mostra, no entanto, que tudo isso estava muito bem guardado e o RECALQUE acumulado estava prestes a explodir.

Isso na Alemanha, claro! Aqui, num país cordial e amoroso nada disso acontece, muito menos a possibilidade de uma pífia e burra imitação do Führer aparecer para salvar a pátria da crise (e de TODOS os seus males) e permitir que a barbárie e o recalque imperem. Brasileiro esperando salvador da pátria, imagina! Brasileiro que não estuda (muito menos História), que não se baseia em fatos concretos, que não se limita a receber informação do Facebook e do WhatsApp, que esquece o coletivo em detrimento das vantagens pessoais, que não é humano e sensato, que não é equilibrado e coerente… Isso não existe aqui, é coisa de alemão, tão somente.

Essa realidade tão distante de nós é brilhantemente retratada no filme, que vale MUITO, mas MUITO a pena ser assistido, pois nada melhor que um riso nervoso e um soco no estômago pra conseguir fazer enxergar (e assustar!) o que prolifera por todos os lados.

 

 

Um caso de identidade, sempre isso!

“Meu caro companheiro”, disse Sherlock Holmes quando estávamos sentados, a lareira entre um e outro, em seus aposentos em Baker Street, “a vida é infinitamente mais estranha do que tudo que a mente humana seria capaz de inventar. Não ousaríamos conceber coisas que, na realidade, não passam de lugares-comuns da existência. Se pudéssemos sair voando de mãos dadas por aquela janela, pairar sobre esta grande cidade, remover suavemente os telhados e espreitar as esquisitices que estão acontecendo, as estranhas coincidências, as maquinações, os quiproquós, os maravilhosos encadeamentos de fatos, que atravessam gerações e conduzem aos resultados mais estapafúrdios, toda a ficção, com suas convenções e conclusões previsíveis, pareceria extremamente batida e inútil.”

Esse é o primeiro parágrafo do conto “Um caso de identidade” de Sir Arthur Conan Doyle, escrito em 1891, época em que o autor jamais poderia imaginar que esses telhados poderiam ser removidos e que as redes sociais pudessem expor todas as bizarrices possíveis, todas elas inimagináveis para o melhor dos escritores. O terror psicológico explorado na ficção de Edgar Allan Poe ou a situação mais bizarra apresentada para análise de Sherlock Holmes poderia, ao menos, chegar aos pés da realidade estapafúrdia que se descortina aos nossos olhos.

O conto trata de uma questão simples: uma moça que se ilude com as promessas amorosas e, que depois de jurar fidelidade eterna sobre a Bíblia (mesmo que ela não compreendesse os perigos que rondavam o casal), vê-se abandonada pelo noivo, no dia do casamento. Acionado para desvendar esse “mistério”, que aos olhos de Sherlock mostrou-se de simples resolução por ser uma situação recorrente, o detetive vê-se impotente por não conseguir punir o noivo canalha (apesar de acertar em cheio quem era, assim como os motivos vis da situação) nem poder alertar a noiva enganada sobre a identidade verdadeira de seu amado. Sherlock termina o conto dizendo ao Dr. Watson que “Talvez se lembre do velho ditado persa: ‘Há perigo para o homem que tira o filhote do tigre, mas também há perigo para aquele que destrói a ilusão de uma mulher.‘ Há tanto sentido em Hafiz quanto em Horácio, e o mesmo conhecimento do mundo.”

Curioso pensar na questão da falsa identidade, das promessas vagas, das juras e na falta de disposição Miss Sutherland (“Ele me encontrará pronta quanto voltar”) em perceber a situação e mudá-la. Ela recebeu “migalhas” e promessas que foram suficientes para turvar-lhe a análise da situação, usar o pensamento lógico, ter a percepção dos sinais de canalhice. Pois é, a arte mimetiza a vida, como já mostrava Aristóteles em relação ao teatro na sua Poética, porém ela ainda é uma pálida imitação dela, mesmo nas maiores tragédias gregas, arremataria Mr. Holmes.

 

Ineditismo ciclístico

“As palavras não curam, mas são uma trégua no desamparo, melodia na solidão” é o que diz o querido Milton Hatoum na crônica “Um sonhador”. Hoje faz uma semana que fiz o pedal para o autódromo e ainda não havia escrito nada a respeito. Meu desejo era o de escrever logo no dia seguinte, não consegui… Eu até fiquei esperando a vontade de falar sobre esse dia passar, mas as sensações e as frases continuaram se formando em minha mente e no meu coração todos esses dias.

Então, eu resolvi dar uma trégua no desamparo desse caótico cotidiano repleto de prazos e demandas (quiçá estas também tivessem aumentado somente os 3% da remuneração!) para escrever sobre o último dia 31. Semana passada foi atípica em todos os sentidos: mais bicicletas nas ruas (aqui!), menos poluição (aqui!), um belo e necessário feriado e um pedal de 47,1km que fez com que eu concluísse a minha meta de 100km/mês pedalando.

Há muito tempo eu não ficava tão ansiosa para um evento, sem contar que a lembrança do meu pai já estava me acompanhando fazia dias. Ao chegar à Ponte Estaiada e encontrar aquele mundão de gente (a hora que eu passei fui número 5.008), a galera toda feliz, o som alto, a satisfação de ainda ter kit (confesso que fiquei decepcionada por não ter vindo um tucaninho de pelúcia… 😛 #sqn!) para ser a minha primeira lembrança de m evento e fazer a estreia oficial da Nina (ôh maravilha de bicicleta!) deixou meu coração bem leve.

A ida foi por dentro dos bairros (Chácara Santo Antônio, Alto da Boa Vista, Socorro, Veleiros e Interlagos) e a volta pelas avenidas Interlagos e Nações Unidas. Dentro do autódromo foram quase duas horas de diversão e cansaço. Eu nunca havia entrado no lá pelo portão 7: uma descidinha com direito a curva e túnel, já com vista para a pista. Ao vislumbrar a pista, muita gente já estava circulando alucinadamente e foi uma imagem bonita de ser ver, aquele bando de luzes vermelhas piscando, era muita gente! Afinal, quando chegamos ao autódromo, apesar de ser 18h, já estava bem escuro.

Dei minha primeira volta morrendo de medo das pessoas se atropelarem e haver uma queda, também de não conseguir cumprir a distância da temida subida dos boxes e ter de empurrar a Nina com a língua pra fora. Naquela altura da noite, eu já havia quebrado o recorde de pedalar, o que me deixou apreensiva. A cada parte da pista com asfalto impecável, um sorriso se abria: ora era um que gritava “uhuhuhuhu” e se divertia como criança nas curvas e descidas, ora outro com macacão (um parecido com aquele azul lindo de quando ele era da Williams) e capacete (o lendário verde e amarelo) do Senna, ora outro com caixa de som e a inesquecível música da vitória, além da galera que, antes de descer, parava pra apreciar a Curva “S” do Senna….

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Até a Nina parou pra ficar olhando o “S”…

Naquele momento, eu revivia toda uma infância/adolescência em que ouvia o som dos motores da minha casa, em que ia com meu pai (que adorava F-1) até o portão do autódromo no dia da corrida só pra ver o movimento e, principalmente, os poucos momentos de harmonia que tivemos juntos. Após a primeira volta, parei e acomodei a Nina no gramado, sentei-me e fiquei olhando a pista, as luzes, a emoção ou cansaço das pessoas e fiz um convescote com minhas lembranças e meu pai. Foi um momento único comigo, com ele, com as lembranças, com o bem-estar que eu estava sentindo e com a vontade de tê-lo ali, ajudando-me a olhar tudo aquilo. Não sei como explicar a epifania do momento, porém foi como se tivéssemos tido mais uma chance para compartilharmos algo.

No total, fiz três voltas na pista (quase 13km) e alcancei a incrível marca de 42km/h! Uhuhuhuhuhuhu… Na saída, em meio a centenas de pessoas, ainda encontrei uma vizinha de infância que se mudou do bairro e que eu não via há muito tempo, mas que me disse ter saído da depressão (por conta da morte traumática do pai, aliás na rua da minha casa) desde que começou a andar de bicicleta. Só a galera dela contava com 80 pessoas! Encontro de acaso e que também deu uma aquecida no coração.

As palavras desse relato formaram uma melodia única para essa memória (PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM / PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM) e, de fato, deu-me uma trégua nesse desamparo existencial. Que venham mais pedais e se construam mais memórias afetivas!

 

 

Estamos cegos

“Cegos. O aprendiz pensou: “Estamos cegos”, e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.”

José Saramago, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, proferiu um discurso tão bonito, que em algumas partes, o coração até dói. O início, por exemplo, quando ele conta sobre seus avós, de como eram sábios, humildes, analfabetos e criadores de porcos (no inverno, os porquinhos dormiam na cama com eles para todos se aquecerem…) ou quando ele fala do difícil e indigesto “Ensaio sobre a cegueira”. É um livro duro, dolorido e cruel e só agora, ao conhecer o discurso eu entendi o porquê: perder o respeito em relação ao semelhante é engendrar por essa inflexibilidade de sentimentos.

Providencial refletir sobre isso em uma época em que tantas pessoas que se dizem “de bem” e “cristãs” adotam uma postura de total desrespeito ao semelhante. Como questiona a pop Monja Coen, do que será que querem nos distrair, com tanto barulho? A mídia que alardeia e demoniza incansavelmente, está recebendo quanto para desviar a atenção das pessoas… E desviar de quê?

Eu continuo bem de olho nas negociações (que não vão nada bem) da Convenção Coletiva, assim como no que se conseguiu de dissídio pra minha categoria (3,15% como benesse adiantada, sendo que as mensalidades subiram cerca de 8%… Bom, professores da USP têm recebido 0% há 3 anos, então estou na vantagem!). Eu continuo atenta aos estragos já feitos pela PEC 55/241, pela Reforma Trabalhista (já há mudanças sérias na minha área), pelo BNCC (ilustre “assessoria” do Alexandre F…, educador de alto nível), pelo adorável, simpático e gestor da minha cidade, pelo Picolé de chuchu (sempre com processos ou arquivamentos sigilosos) no ensino superior virtual e real…

Olhar, ver, reparar, estudar, refletir, analisar, lutar pelo coletivo… É disso que nosso país precisa, ao invés de ofender, berrar, impor, desrespeitar, lutar pelo individual, por mais que os “imbecilizadores profissionais” façam o mesmo, para dar o exemplo.

Há muito o que analisar e se preocupar, por isso não me abalo por tempestade em copo d´água que tem sido utilizada maquiavelicamente como matéria-prima de manipulação, ainda mais porque não perdi o respeito pelo semelhante, muito menos por mim. E, ainda Saramago, para terminar essa reflexão:

Se podes olhar, vê.

Se podes ver, repara.

 

19 km depois…

A bicicleta foi uma constante na minha infância (assim como os patins e a bola de vôlei) e eu lembro nitidamente o dia em que aprendi a andar sem rodinhas. Eu achava linda a minha Monark verde e o Tio Valter estava comigo na rua da casa de meus avós. Só me lembro dele ter dito um pouco bravo que tiraria aquelas rodinhas e que eu andaria sem elas.

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