“Se não sais de ti, não chegas a saber quem és”

“Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando estás a sós com uma mulher.”

O conto da ilha desconhecida. José Saramago

A leitura desse conto de Saramago nada tem a ver com o oportunismo de se falar sobre ele, logo agora que ele se foi… O livro caiu-me novamente nas mãos no final de junho e aproveitei para relê-lo durante as férias.

Os desejos e vontades do homem aparecem intensamente nesse conto de Saramago, de uma maneira que eu havia me esquecido. Talvez esquecido dos desejos e vontades, talvez esquecido da intensidade como ele escreve. O conto é breve e simples em sua tensão: um homem posta-se à porta dos desejos de seu rei e pede um barco para encontrar “a ilha desconhecida”.  Mesmo com todos dizendo que não existem mais ilhas desconhecidas a serem encontradas, o homem insiste e somente a mulher da limpeza do castelo se impressiona com sua determinação.

Sairmos de nós nem sempre é uma tarefa externa, ou seja, não é preciso viajar para isso. Creio que seja essa a reflexão sobre a vida. Incomoda-me, porém, o fato do homem do barco ter conseguido isso somente a partir da mulher da limpeza, como sempre o amor permeando as descobertas.

O clima onírico e a pontuação singular dão o tom de parábola ao conto de Saramago. Os desejos e as vontades ficam pululando após a leitura. Espero que por muito tempo.

 

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