Nudez e atitude

Eis o trecho do livro “A trégua” de Mario Benedetti que mencionei no post de 18 de abril. Lindo, poético e um pouco na contramão do ideal de beleza que se prega. A atração aqui é algo que vai além do estímulo visual e tátil que causa a nudez e, que muitas vezes, não passa disso. Talvez por isso a efemeridade de tantos relacionamentos. Ou não.

“Sábado, 13 de julho

Ela está a meu lado, dormindo. Estou escrevendo numa folha solta, à noite vou passar para o caderno. São quatro da tarde, final da sesta. Comecei a pensar com uma comparação e terminei com outra. Está aqui, a meu lado, o corpo dela. Fora está frio, mas aqui a temperatura é agradável, está antes fazendo calor. O corpo dela está quase descoberto, a manta e o lençol deslizaram para o lado. Quis comparar este corpo com minhas lembranças do corpo de Isabel. Evidentemente, eram outros tempos. Isabel não era delgada, seus seios tinham volume, por isso caíam um pouco. Seu umbigo era afundado, grande, escuro, de margens grossas. Seus quadris eram o melhor, o que mais me atraía; tenho uma memória tátil de seus quadris. Seus ombros eram cheios, de um branco rosado. Suas pernas eram ameaçadas por um futuro de varizes, mas ainda eram bonitas, bem torneadas. Este corpo que está aqui a meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. Avellaneda é magra, seu busto me inspira um pouquinho de piedade, seus ombros são cheios de sardas, seu umbigo é infantil e pequeno, seus quadris também são o melhor (ou será que os quadris sempre me comovem?), suas pernas são delgadas mas são bem feitinhas. No entanto, aquele corpo me atraiu e este me atrai. Isabel tinha em sua nudez uma força inspiradora, eu a contemplava e imediatamente todo o meu ser era sexo, não havia por que pensar em outra coisa. Avellaneda tem em sua nudez uma modéstia sincera, simpática e inerme, um desamparo que é comovedor. Ela me atrai profundamente, mas neste caso o sexo é só uma parte da sugestão, do chamamento. A nudez de Isabel era uma nudez com atitude. Para gostar de Isabel bastava sentir-se atraído por seu corpo. Para gostar de Avellaneda é preciso gostar da nudez e da atitude, já que esta é pelo menos a metade de seu atrativo. Ter Isabel nos braços significava abraçar um corpo sensível a todas as reações físicas e capaz de todos os estímulos lícitos. Ter em meus braços a delgadeza completa de Avellaneda significa abraçar também seu sorriso, seu olhar, seu modo de dizer, o repertório de sua ternura, sua resistência. Bem essa era a primeira comparação. […]”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s