Em que momento o encanto acaba?

“Quando o motor dos aviões para de funcionar não é o fim do voo. Os avioes não caem como pedras do céu. Eles continuam planando, os enormes aviões de passageiros com várias turbinas planam de 30 a 45 minutos, para então se espatifarem ao tentar pousar. Os passageiros não notam nada. Voar com os motores parados não dá uma sensação diferente da de voar com eles funcionando. É mais silencioso, mas só um pouquinho: mais alto do que os motores é o vento que bate contra a fuselagem e as asas. Em algum momento, quando se olha pela janela, a terra ou o mar estão ameaçadoramente próximos. Ou está passando o filme, e as aeromoças e comissários de bordo fecham as cortinas. Talvez os passageiros sintam o voo um pouco mais silencioso, como um voo especialmente agradável. O verão foi o voo planado de nosso amor.”                            Capítulo 14. O leitor. Bernhard Schlink

A metáfora do avião em queda livre representando o fim de um relacionamento é belíssima… e perfeita. No caso de Hanna e Michael não é o encanto que acaba, mas o peso de uma vergonha que põe fim ao período de felicidade. Na realidade, muitas e muitas vezes não somos capazes de perceber quando o avião se precipita em queda livre. A isso eu chamo de instante em que o encanto acaba. Encanto, amor, paixão, o nome é a gosto do leitor.

Há muito tempo que penso sobre isso. Já cheguei a conversar com o FK sobre o assunto e percebi que não é algo que inquieta só a mim. Já vi situações em que a pessoa nem dava muita importância para a outra e o encanto acabava, então a conclusão básica era “viu só, não valorizou, perdeu”. Também presenciei pessoas que não davam importância nenhuma a outra, às vezes até usando-a e humilhando-a e, ainda assim, essa outra pessoa está passando quase duas décadas da vida “encantada”. Já testemunhei situações nas quais uma pessoa cerca a outra de atenção, de gentilezas, carinho, amor e de tudo mais que seja possível entregar a outra pessoa e, num determinado instante, simplesmente ouve a sentença: “o encanto acabou”…

Há encantos que são fáceis de detectar a causa de seu fim. Acabam, quando acaba o dinheiro, a beleza, a firmeza do corpo, a virilidade. Encantos que acabam quando caem os cabelos, quando se descobrem defeitos inaceitáveis e desvios de caráter. O encanto morre também, quando ele está sozinho, ou seja, quando só um alimenta isso. A morte, para esses encantos, tem data e hora marcadas.

Mas, e os encantos que acabam anonimamente? Sem data nem hora?

Quando assisti My blueberry nigths do Wong Kar Wai (veja o trailer), pensei ter encontrado uma correspondência na arte desse tipo de inquietação. No filme, tampouco se explica como o encanto acaba. O fato é que, do nada, ele acaba e Elizabeth (Norah Jones) se vê sem chão, ao ser trocada por outra, como se fosse uma toalha do banheiro posta para lavar. Talvez não haja razão. É um lindo filme, pois mostra a dor e um dos caminhos para superá-la: sumir pelo mundo, viver um dia de cada vez, conhecer a história de outras pessoas e ir adiante, mesmo não tendo nenhuma razão para isso. Esse abandono retratado no filme é uma situação que demonsta, no mínimo, crueldade… ou o que é pior, indiferença e desinteresse.

A indiferença talvez seja o mal do século. Qual a relação entre (des)encanto e indiferença? Uma hipótese é a de que o encanto transforma-se em desencanto, quando a indiferença começa a reger os relacionamentos. Vinícius de Moraes foi muito feliz em evidenciar o zêlo, como elemento essencial para a intensidade de uma relação. Mesmo já conhecendo o Soneto de Fidelidade há muito tempo, houve um instante em que ele se tornou uma bela e triste revelação para mim, pois percebi que sem esse zêlo com a outra pessoa, não há intensidade nem encanto.

Assim como o poema foi um momento de alumbramento, de epifania, fazer Yoga e tentar meditar num Templo Budista também me trouxeram experiências únicas. Com o poema, a certeza de que o zêlo era o caminho para a intensidade e do “se importar com o outro”; na Yoga eu aprendi que, para perceber que uma mesma postura estava num tempo diferente (por isso, era sempre como se fosse a primeira vez), era imprescindível prestar atenção em cada parte do corpo e, principalmente, sentir o sangue correndo a cada centímetro em nossas veias e até o ar circulando pelo pulmão; na meditação descobri que ter contato com o vazio é uma maneira de perceber-me como indivíduo e, consequentemente, interessar-me sobre o que eu sou e o que sinto, valorizar o fato de respirar, sentir, encontrar-me, viver. Se interesso-me por mim e sinto-me como indivíduo, também sou capaz de fazer isso depois, com o outro.  Experiências únicas e que estão muito longe da indiferença, com certeza.

Para mim, sair da zona da indiferença é o primeiro passo para encantar-me por alguém. Eu já disse isso aqui uma vez: conhecer pessoas e suas histórias me encanta. Dar o primeiro passo para a indiferença é o caminho mais curto para o desencanto.

Quantos e quantos passos não damos a caminho da indiferença, não? O velho chavão da falta de tempo é um desses caminhos, o esforço em sentir “sangue e ar nas veias e artérias”, talvez seja a estrada mais larga. Manter, alimentar, cuidar, sentir, valorizar, zelar são ações difíceis. Por vezes lembro-me daquelas flores dos canteiros, que só servem no momento da florada e quando precisam de replantio, são sumariamente eliminadas e trocadas por mudas fáceis e que já estejam florescendo. Será assim também o tratamento com os relacionamentos? Será o momento do replantio, o cruel momento do desencanto?

Caro e paciente leitor, qual sua opinião sobre isso?

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6 comentários

  1. Na minha opinião os pontos que levam ao desencanto estão relacionados com as expectativas e ilusões criadas pela nossa mente com relação ao parceiro. Estas expectativas não levam em consideração o LIVRE ARBÍTRIO e necessidades do outro individuo. O AMOR quando verdadeiramente está presente não cria vínculos de DEPENDÊNCIA, ao contrário, faz com que as pessoas possam estar livres para que se sintam SEGURAS no caminhar com suas próprias pernas, procurando atingir as suas NECESSIDADES e os seus INTERESSES.

    Quando as pessoas se abandonam para viver em função dos outros. A cura se dá quando começam a olhar suas próprias necessidades e direcionar as ações para atendê-las. Cuidando do seu autosuprimento emocional, ocasionando às vezes, se não houver um amadurecimento emocional do casal o FIM do relacionamento.

    • Querido Darroçanostemposdascavernas… Muito obrigada por ter deixado o seu comentário. Boa parte dele já discutimos por e-mail, mas ficaria super contente se pudéssemos manter sempre esse diálogo! Aliás, nem acredito que você assumiu a sua verdadeira identidade aqui na net! Risos… Passe mais vezes por aqui! 🙂

  2. Se não concordasse com suas palavras e não comparasse o fim dramático do “encanto”, talvez a reflexão sobre suas palavras não fizesse retornar-me da realidade encantada que vivo. Por vezes me pego pensando no meu amado Vinicius de Moraes e entrego algumas perguntas ao vento:
    Tão belos amores e repentinos fins? Talvez “realmente” não haja razão? Isso leva-me a concordar que o “avião” está inclinado para os relacionamentos. Mas o que importa é sempre o friozinho na barriga, depois é quentão de tempo pra embarcar novamente rumo a um novo “encantamento”, isso sim é inumerável.

    Estou a bordo do seu Blog, minha eterna mestra!

    Grande bj

    Cindy

    • Minha querida Cindy, um prazer tê-la a bordo, pode acreditar! O mais difícil disso tudo é ter a disposição de enfrentar friozinhos na barriga, mesmo sabendo dos fins repentinos e do avião que plana inexoravelmente. Beijo grande.

  3. Acredito que no fundo todos os encantos cessam quando a gente passa a realmente conhecer quem ou o que nos encanta. Isso é normal e fruto da curiosidade. algo inerente a nossa espécie. O que talvez mais importe é que o pós encanto.

    Meu comentário parece confuso, mas de certa forma minha linha de raciocínio é simples. O encanto é aquilo que nos aproxima de algo, mas não é o que mantém. O que mantém é a admiração por aquilo, mesmo sabendo como aquilo se dá. Mesmo com a compreensão de como as coisas se formam, com a leitura do lado obscuro que tudo sempre apresenta, alguma admiração pode resistir e quando ela persiste você fica, se ela some, você parte junto com o encanto inicial.

    Eu me encanto por muitas coisas, mas no final confesso que admiro poucas. Isso acaba valendo inclusive para pessoas. Preciso admirar, não me encantar para realmente querer me aproximar de alguém e isso é sempre um processo lento e que vai além das qualidades, chega aos defeitos. Eu penso que o encanto vem do que a pessoa tem de bom a oferecer, a admiração surge como algo que diz apesar dos defeitos que você tem.

  4. Penso que os encantos acontecem quando percebemos algo singular seu,
    em plural com outros. Isso sem contar os encantos gratuitos. Mas
    triste é se privar desses encantos, mesmo sem saber como acabam. De
    alguma coisa lhe servem, minimamente um post no blog.
    (saiba do meu encanto por você)…

    Beijão

    Elias

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