Disponibilidade emocional, encanto e admiração

Depois de dias e dias, já é possível sair da Sibéria das Notas, ainda que a Sibéria Social persista e não haja previsão de retorno. Quando eu li Crime e Castigo do Dostoievsky, confesso que fiquei bem impressionada com a inóspita Sibéria retratada, uma prisão isolada e fria para os contraventores russos. Agora, que não saio de lá, considero-a aconchegante e necessária, só não pretendo uma redenção religiosa como a da Raskólnikov.

Na Sibéria Social, continuei pensando na questão do encanto e em tudo o que me disseram sobre o assunto. Pensei, principalmente, sobre o que disse o Alex, do blog Olhares Dispersos, que eu acompanho há mais de um ano.  O tempo passou rápido (novidade, não?) e, quando eu pensava no assunto, nos momentos em que submergia do mar de trabalho, muitas coisas me vieram à mente. Pensei tanto, que muito do tema perdeu o sentido, por isso vou comentar somente um aspecto: o da admiração. Para isso, eis de novo, um trecho do Schlink:

“Após olhá-lo por um bom tempo, o rosto vivo surgiu no morto, o jovem no velho. É assim que deve acontecer em casais velhos, pensei; para ela, o homem jovem fica preservado no velho e, para ele, a beleza e o encanto da mulher jovem na velha. Por que eu não tinha visto aquela imagem na semana anterior?”

Michael não estava disposto a ver nada, porque ele não conseguia admirar uma guarda da SS. Como descendente daquela geração de carrascos ou omissos, ele não podia ser conivente com aquilo tudo, não podia admirar Hanna.

Nós só admiramos aquilo ou aqueles que atendem aos nossos pré-requisitos, ou seja, só admiramos aquilo que está em consonância com o que consideramos “bom”. O que é bom para nós e o que é bom do ponto-de-vista da sociedade. Para mim, o exemplo mais marcante dessa lógica é o meu pai.

O encanto é a porta de entrada, estar disponível emocionalmente para conhecer alguém é o segundo passo, chegar à admiração daquilo que pode ou não ser o casamento perfeito (desculpe a expressão! risos) com nossas ideias é o que manterá a admiração viva. Isso tudo coloca em xeque a concepção romântica sobre o amor, de que ele “vem e invade”, sem explicação. Já ouvi pessoas dizerem que não levaram algo adiante, porque não havia dado um “tchan”, mas também sei que para muitos desses, não havia uma disponibilidade emocional para admirar alguém. Todas as pessoas são admiráveis, sempre.

Será que alguma vez você já deixou de admirar alguém por não estar disponível emocionalmente para isso (e nem perceber) ou passou pela circunstância de ouvir que você não era interessante, sem ao menos a pessoa tentar te conhecer? 

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5 comentários

  1. sobre sua pergunta no fim da entrada: acredito que fazemos isso por conta de pré-conceitos, e não necessariamente por conta de uma indisponibilidade emocional. falando de mim: há personalidades no mundo do esporte com feitos incríveis – e que não tenho como negar – pelos quais não nutro o menor sentimento, dada a falta de carisma. por exemplo, michael jordan. pra mim, o melhor jogador de basquete dos últimos tempos, mas eu não consigo gostar dele. 😛 talvez porque o chicago bulls tenha batido os times que eu gostava… não sei. ou então o piloto da motogp, jorge lorenzo. talentoso, extremamente técnico. mas não me desperta nada. (é bem verdade que mais recentemente eu baixei a guarda em relação a ele, dado que parte da rejeição se deve a como a mídia trabalha essa coisa de rivalidade – ela adora amplificar uma picuinha.)

    admiração me parece ser fundamental em um relacionamento, seja ele amigatício ou amoroso. sem isso, não se tem nada além de coleguismo.

    • Esse comentário estava abandonado, sem resposta. Boa Hermes, sim pré-conceito é um fator muito mais presente do que eu poderia ter pensado na época e muito menos evidente. Afinal, quando a gente se considera com todos os “pré-requisitos” sociais preenchidos, não imaginamos que podemos ser barrados pelos preconceito de alguém. Mas, você tem razão. E, sabe o que é o melhor? Azar de quem não se dispôs a conhecer alguém por isso!
      A propósito: MJ era meu ídolo, pois eu jogava basquete e meu time do ❤️ era “Chicago Bulls”! Eu tinha a mão dele em tamanho original colada no meu guarda-roupa! Adorava medir a minha mão na dele! Risos

      • tenho pra mim que foi esse comentário que fez com que eu passasse a seguir seu diário. who would wonder! 😉

        a história do pré-conceito tem muito a ver com a forma com a qual um assunto é abordado. você olha para a situação e se pergunta, já jururu: por que vou fazer isso? pra quê? na verdade, a abordagem mais interessante seria: como isso pode me ser útil? nem sempre a estratégia do “HELL YEAH!/NO” se aplica – às vezes há espaço para um “yes! why not?”

        MJ era dose. o cara jogava muito. aliás, era bacana ver l. bird, magic johnson, i. thomas, d. rodman, o briguento bill lambeer, p. ewing, c. barkley, c. drexler, d. robinson e cia jogando. curtia muito spurs, lakers, pistons e celtics. e você tem se mostrado uma caixinha de surpresas agradáveis: rock, blues, basquete… que mais me aguarda? 😉

      • Galera do balacobaco! Meu time chamava “The Bulls girls” (patético, eu sei!). Sabe, meu sonho de consumo é assistir a um jogo da NBA. Já pensou? ⛹🏾⛹🏾⛹🏾⛹🏾⛹🏾⛹🏾⛹🏾

      • patético? por quê? podemos prescindir essa autodepreciação. =)

        há algum tempo que deixei de acompanhar a cena cestobolística, em particular a nba. hoje tô mais para a mlb e a nfl. mas em qualquer uma das três ligas, assistir a uma partida in loco faz todo sentido!

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