Pessoas plurais como o universo

Não comentar nada da exposição sobre Fernando Pessoa foi uma maneira de dar tempo para interiorizar a genialidade desse poeta, múltiplo e único (com ele, isso é possível!), universalizante e pontual… Nada do que eu disser poderá ser maior ou melhor do que ir à exposição e embrenhar-se na poesia das pessoas de Pessoa. Agora, o melhor de tudo é saber que bem pertinho de onde descansam os versos multimídia do mestre e seus discípulos, materizaliza-se a multiplicidade do ser humano. O piano no saguão da Estação da Luz é a concretização da multiplicidade do ser humano, é a surpresa e a arte que surgem e encantam a quem quer que seja.

No ano passado, fui ao Museu no mês de maio, para a exposição sobre a influência da França no Brasil e, do andar da exposição, eu podia ver o saguão e o piano. Foi um encantamento à distância. Aquilo realmente mexeu comigo. Neste ano, fui até lá e minha vontade era a de não desgrudar os pés daquele saguão lindo, nem desviar os olhos daquela estrutura de estilo inglês, muito menos dos dedos daquele morador de rua, que nos encantava com sua música… O meu analfabetismo erudito não será capaz de informar o compositor, a não ser pela última música tocada “Asa Branca”.

A sensação que tive foi a mesma que o eu lírico de “A flor e a náusea” teve no poema do genial mestre Carlos Drummond de Andrade:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O piano no saguão, as pessoas que param e ouvem, as que se arriscam a dedilhar lembranças musicais, as que desenferrujam os hábeis dedos, as dedilham as teclas sem conhecer nota nenhuma, as que sentem um despertar dentro de si, as que incluem belas notas nos ouvidos cansados e estressados do dia a dia… As pessoas traziam em si a multiplicidade de desejos do universo e a uniminidade no rosto de um sorriso.

Piano, pessoas e saguão da Luz, por Henrique Manreza
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4 comentários

  1. Eu fico impressionado com a capacidade que você tem de expressar o sentimento extraído dos singelos detalhes.. Isso é uma virtude que poucos tem! Me encanta a maneira como descreve a multiplicidade do ser humano, ou as belas notas no ouvido das pessoas.. Fantástico!

  2. De maneira alguma, o prazer é todo meu!
    Incrível é você que nos proporciona inexplicáveis sentimentos quando coloca “no ar” suas palavras!

    Bem, gostaria de deixar registrato que, impulsionado pelo anseio em escrever e por sua iniciativa coloco no ar o blog http://analiseeconomica.wordpress.com onde buscarei construir ideias e analisar teorias economicas, politicas e sociais.

    Por enquanto o lado poeta fica um pouco de lado.. risos

  3. Concordo com Franklin em tudo que diz, pricipalmente ao mencionar a sua capacidade de expressar o sentimento extraído dos singelos detalhes. Também me encanto com a maneira que você descreve os fatos, os momentos, e principalmente seus maiores sentimentos! De forma totalmente diferente, você consegue se demostrar, uma pessoa delicada e cautelelosamente cuidadosa com as mais variadas situação da vida!
    Gostaria de possuir essa dádiva que à domina, esse amor ao próximo, e poder me expressar bem… Como você se expressa, queria poder utilizar as mais desconhecidas palavras em português para formar minhas simples frases 🙂
    Eu tive o prazer de desfrutar desse momento super gostoso vivenciado no Museu da Língua Portuguesa, rodeada por simples períodos, grandiosos versos, e magníficas frases de Fernando Pessoa, que por sinal é um poeta Incrível ! Como também vivenciei a EMOÇÃO de ver o que nunca havia visto antes um senhor simples e me parecia tão puro… Tocando, aquelas partes brancas do piano ou melhor dizendo: Dedilhando aquela teclas e tocando Asa Branca, música antiga, fora da moda… Mas acho que popular, sabe aquela primeira música que aprendemos em qualquer um dos instrumento ou oralmente mesmo … Naquele momento eu aprendi que Ser simples é ser incrível. Foi despertado minha perene suspeitada alegria de conviver que havia se desmanchado com o passar do tempo e circunstâncias…
    Bom, vou ficando por aqui… Parabéns Flor por essa sua dádiva maravilhosa! 🙂

    Beijos Lenice Santos 😀

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