Razão, sentimento e amadurecimento emocional

Voltei só agora  meu primeiro encontro com o Clube de Jane Austen. Eu voltei para o século XXI (:() e os demais membros continuaram no século XIX, esperando a próxima visita chegar.

O chalé da família Dashwood é realmente um encanto e as colinas verdes que são avistadas do quarto emq ue fiquei no 2º andar enchem os olhos de paz e a mente de frescor e esperança, o que tornou a estadia por lá muito saudável. O mais incrível dessas “férias” de uma vida ordinária foi que em nenhum momento esqueci de onde vim. Incrível como a sociedade continua a mesma, os mesmos dilemas, a mesma ausência de amadurecimento emocional, as mesmas situações. Absurdamente incrível a semelhança!

O que dizer da convivência com a Marianne, a linda, alegre e impulsiva da família? Ela tem em mente todas as características do seu eleito e essas características nada mais são do que um reflexo de si mesma e de seus gostos. Para ela, o homem eleito precisa gostar de todas as coisas das quais ela gosta e eles não podem divergir em nada. Ela se entrega completamente a Willoughby, pois ele se encaixava nos seus critérios e ainda emitia sinais incontestáveis de que correspondia a tudo. Ela amou e sofreu com a mesma intensidade, esperou por notícias dele (naquele típico compasso de espera) e isolou-se do mundo e da vida, pois ele sempre acreditou que só haveria um amor para a vida. Como não se identificar com ela e com todas as etapas pelas quais ela passou?

Como não se encantar com o Coronel Brandon, o “senhor de 35 anos”, já velho demais para se casar, de acordo com o julgamento da própria Marianne?

Como não se divertir com a caricata Sra. Jennings e suas filhas Charlotte e lady Middleton, com seus respectivos maridos? Eles materializam todos aqueles que são movidos pelos acontecimentos na vida alheia.

Agora, o que são aquelas irmãs Steele? Simpáticas ao extremo (tenho uma teoria um pouco radical sobre pessoas muito simpáticas e que caiu como uma luva para essas irmãs), bajuladoras e interesseiras. Lucy joga com todas as suas armas, impondo-se como amiga.

E o casal perfeito, John e Fanny? Um fala e o outro assina embaixo, sem pestanejar. Egoístas e encantados com a possibilidade de ter sempre contatos com gente mais rica.

E Willoughby? Quantos dessa espécie cada um de nós já encontrou pela vida? (Eu já encontrei e me apaixonei por vários!) Boas pessoas, porém com sérios problemas de caráter. Desde manipular e usar garotas, com o propósito de enaltecer o ego e satisfazer desejos, até não ter firmeza suficiente para cumprir sua palavra. O mais curioso foi acompanhar o desfecho de sua história, com a conclusão de que no fundo ele seria um eterno insatisfeito: casou-se com a senhorita rica para não ficar na miséria e se tivesse se casado com Marianne, que ele amava, ficaria insatisfeito por ter sempre de passar por privações. E mais: que ele acabou sendo razoavelmente feliz, mesmo sem amor.

Merecia censura, muita censura, por ter permanecido em Norland ao perceber que as inclinações que sentia por ela eram mais fortes do que deveriam ser. Nisso ele não merecia defesa, mas se a magoara agindo assim, magoava muito mais a si próprio. Se o caso delas era lamentável, o dele era sem esperança. A imprudência de Edward a tornava infeliz por algum tempo, mas o impossibilitava de ter a oportunidade de algum dia deixar de ser infeliz. Com o tempo, ela poderia recuperar a tranquilidade, mas que esperança tinha ele de consegui-lo?

De quem poderia ser esse pensamento, que não da adorável Elinor? Aos 19 anos ele é tão madura emocionalmente que chega a ser uma cartilha de aprendizado. Ponderada, equilibrada, com um imenso coração e, acima de tudo, com uma compreensão das relações amorosas acima da média, mesmo 200 anos depois. Como explicar a admiração que nasce assim, acompanhando as conclusões e a linha de raciocínio dela?

“Mas não amava apenas a ele, e como a paz dos outros é importante para mim, fiquei contente por que os poupava de saberem como me sentia.” (A Elinor não é demais? :))

Edward parece até um par muito sem sal para ela e alguém como o Coronel Brandon seria muito mais adequado. No entanto, a própria Elinor não criava expectativas sobre como deveria ser seu eleito, compreendia e aceitava as limitações de Edward e, creio mesmo, que até nisso Elinor mostrou seu valor, ao se unir a alguém completamente normal e sem grandes atrativos admiráveis. A certeza de que ele era uma pessoa honrada, de que o afeto que dedicava a ela era sincero e que havia predisposição em ir adiante, fizeram com ele Edward fosse o seu eleito. Sem beleza perfeita, sem demonstrações arrebatadas, sem fortuna, sem brilhantismo intelectual ou artístico. Simples assim.

Nem preciso dizer que a narração observadora e crítica de Jane Austen encantou-me, né? 🙂

Conviver com as particularidades de personalidade de cada uma das mulheres da família Dashwood foi uma experiência incrível, observar as conversas, analisar os comportamentos, espantar-me com a futilidade da sociedade (isso me lembra algo…), respirar aquele ar das montanhas, correr pelas planícies, ouvir Marianne tocar e cantar, admirar os quadros de Elinor e, sobretudo, sentir que cresci emocionalmente durante essa convivência, fizeram-me perceber que a vida pode ser extraordinária. Isso significa que voltarei para o chalé, quando precisar novamente equilibrar razão e sentimento.


Jane, obrigada por ter escrito “Sense and Sensibility”!

Será que o filme e a série são tão bons quanto o livro?

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2 comentários

  1. tô lendo Pride and Prejudice (devagar) depois de ter assistido o filme.. adorei a idéia do clube, vou tentar arrumar membros e montar um.. saudades.

    • Oi Nathy! Tudo bem?

      Que saudade! Que bom você ter aparecido. Caso arrume um grupo e estiver sobrando uma vaga, lembre de mim, ok?

      Beijo muito mais que grande!

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