Baú dos 15: Remington no sol e na chuva

Eu tinha 15 anos e nem era minimamente iniciada no mundo da literatura (isso não é um exagero, não era mesmo). Na mudança de colégio, de repente, alguns poucos livros e poemas (de origem duvidosa) começaram a cair em minhas mãos. De lá para cá, nunca mais os larguei. Só que consegui apurar o gosto, eu acho.

Eu datilografava tudo na minha máquina Remington e carregava as folhas no meio do meu fichário. Nessa máquina também eu fazia meus textos de opinião para o colégio e para o fanzine punk.

Engraçado lembrar disso, mas o dia chuvoso foi o culpado. Um dos poemas datilografados que me encantavam é de um autor que eu nem sabia quem era (pois é, nem ligava para direitos autorais) e que depois de descobrir pelos meios modernos, continuei com um ponto de interrogação. Verdade, não foi só a chuva que me fez lembrar desse texto. O outro motivo foi a certeza de que eu tinha, já naquela época, de que melancolia não era sinônimo de infelicidade e de não me conformar de seguir o padrão de felicidade imposto pela sociedade. Pois é, desde sempre as imposições sociais me incomodam. Eis o poema do J. G. de ARAÚJO JORGE, lá do fundo do baú dos meus 15 anos:

Sol… e Chuva…

Gosto desses dias molhados, de chuva miúda, de chuva fina

chuva boa,

de névoa, de garoa,

em que a gente não sente a obrigação de ser feliz,

e fica em si mesmo à-toa…

 

Basta a gente ficar onde esta, nada mais, é tudo que se quer,

vendo a chuva cair, a chuva caindo,

ficar sentado, acomodado, num lugar qualquer

ouvindo o rumor da chuva, ouvindo.

ouvindo.

 

Dias que não pedem nada, que não exigem nada, que não incomodam,

em que a gente fica em casa, sem necessidade

de companhia, de ter alguém,

basta essa sensação que agora é minha…

Oh, a paz, essa felicidade impessoal, perfeita

que consegue ser feliz sozinha…

 

( Como doem certos dias de sol, de tanta alegria!)

Dias exigentes que gritam por felicidade, que reclamam vida e emoção

e que encontram às vezes a gente tão só

no meio de tanta gente,

tão só e desprevenido

sem saber que fazer – meu Deus! – do coração!

 

Dias de sol que derrubam a gente,

que maltratam a gente, passam por cima,

da gente

sem piedade,

tontos, deslumbrados,

e se vão a cantar uma felicidade

por todos os lados,

uma felicidade de bola de cristal, inexistente,

sem ver que ficamos no chão, como indigentes

abandonados…

 

Ah! gosto desses dias assim, de olhos embaciados, cinzentos,

de chuvinha mansa, de chuvinha boa,

que não perturbam o coração

que descansam a vista;

que, no máximo, esperam que a gente se sinta bem,

e nos deixam em paz, sem nada, nem ninguém,

– só isto!

 

Nesses dias, humilde e só, um pouco egoísta

talvez,

– existo…

 

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