Clarice Lispector ou Antes que o mês acabe

Creio que eu esteja passando pelo período de Aquário, pois foco não tem sido o meu forte esses dias… A multiplicidade é muito mais interessante! Minhas leituras estão mudando, assim como muda meu estado de espírito. Semana passada eu havia começado “Desde que o samba é samba” do Paulo Lins. Não resisti ao fato do livro estar indo para as prateleiras da livraria naquele instante em que eu entrei na loja e, como adoro o autor e adorei a sinopse, comprei. Muito sexo e pouco samba depois, resolvi deixá-lo em suspenso, de castigo…

E, como o ânimo mudou, assim como mudou o teor sms do meu dia, parti, sem titubear, para “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” da Clarice Lispector. Bom, todo esse preâmbulo somente para comentar sobre duas passagens do início do livro. Eu já o li e sei o quanto mexe comigo. Eu já o recomecei duas ou três vezes e sempre paro logo depois da lágrima. Essa primeira parte está toda grifada e comentada e a cada vez que releio sinto uma identificação ímpar. Só que dessa vez eu descobri algo a mais.

“Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição). (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava). E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser).”

Eis a síntese de tudo. Estranho isso, não? Ler algo que contempla o que sentimos e o que somos. É uma sensação estranha e conhecida, é uma descoberta, como aquela do Caeiro “Sei ter o pasmo essencial / Que tem uma criança se, ao nascer, / Reparasse que nascera deveras… / Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo…”. E foi bem isso que (re)aconteceu quando li esse trecho. Mas, a querida Clarice não parou por aí, e ela que me conhece como a palma da sua mão, continuou, sem piedade.

“Era uma velha de quatro milênios. Não – não fazia vermelho. […] A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos mas duros – e sobretudo a boca voraz para nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada pelo planeta Marte.”

Talvez eu nunca tivesse reparado nesse trecho (difícil, mas possível). Talvez eu não estivesse com “olhos de descoberta” para ler e entender esse trecho. Visceral, no mínimo. E, retomando aquela conversa sobre epifania, foi nesse momento que descobri o porquê das releituras sempre pararem logo após a lágrima: é que eu ainda não senti a falta de sede. Se essa percepção da sede não existe, tampouco existirá a disposição para a aprendizagem da Lóri.

Ainda não é hora de (re)continuar o livro, mas pode ser que ela esteja chegando.

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4 comentários

  1. Esse livro é maravilhoso!
    Clarice dá um tapa na cara de qualquer um…
    Nunca li um texto dela que não me fizesse chorar de passar mal mesmo!

    • Como ela consegue ser tão intensamente particular e universal? Ler Clarice é aprender sobre nós mesmas.
      Querida Tarciana, obrigada por passar por aqui e deixar um comentário. Meu coração se enche de alegria toda vez que você dá notícias. Me orgulho muito de você!
      Beijos,

  2. Ler um livro é dividimos a atenção é dedicar um tempo a algo e receber a informação em troca. È uma companhia, um parceiro. Um lugar que viajamos e ficamos por lá sem tirar os pés da sala.

    Clarice vem sendo uma ótima companhia, sempre tem algo a acrescentar.

    E hoje eu resolvi dividir o meu tempo aqui no seu cantinho Èrika, e que maravilha é estar com você mesmo com os meus pés tão longe.
    Saudade.
    Cindy

    • Cindy, minha querida, quanta saudade de você e de toda a turma!

      Sempre me pego tendo aquela saudade maravilhosa daquele ano, das risadas, dos saraus, dos presentes que ganhei (delícia reler os livros e ler as dedicatórias! :))… Puxa, que turma inesquecível e incomparável!

      Vou me animar para escrever mais e dividir mais livros!

      Beijos,
      Érika

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