Transmissão de pensamento

Engraçado como ao vivenciarmos uma situação, algumas leituras nos aparecem para confirmar uma sensação que parece única e isolada. A escrita tem esse poder: materializar o inconsciente coletivo. Se há tanta gente vivendo isso, vivendo assim, (sobre)vivendo então também deve ter um monte de gente que já encontrou uma saída… (Ainda é possível ter esperanças, não? :))

Li esse texto do Marcos Fabrício Lopes da Silva e peço licença para transcrever partes dele aqui…

“Devagar, DEVAGARINHO

Marcos Fabrício Lopes da Silva*

Velocidade máxima, compreensão mínima. A pressa é amiga da pressão e inimiga da reflexão. Ligeira, a humanidade se atropela, metendo os pés pelas mãos. Sempre atrasados, tudo pra ontem, pisamos no acelerador como se não houvesse freio. À medida que aprendemos a correr, era como se desaprendêssemos a andar. Caminhar à toa parece uma ofensa, um crime de lesa-agenda. Só vale o que for programado. Pintando uma brecha, divirta-se, mas não se empolgue muito. O lazer é tido como vilão do batente. Por isso, ao invés de dignificar, o trabalho está danificando o homem.

Devorar não é o mesmo que apreciar. Estamos perdendo a nossa capacidade de contemplação e entendimento. Evitando dilemas e esforços, queremos fórmulas e atalhos. Confundimos encontro com contato. Tristes aqueles que se sujeitam aos manuais de felicidade. Estão plantando euforia e vão colher depressão. Desconhecem o prazer profundo, que é de outra ordem. No poema Minha alegria (1996), Waly Salomão soube abraçar a complexidade presente na satisfação íntima de acolher a diversidade sentimental que compõe a vida em sua magnitude, considerando perdas e ganhos: “minha alegria permanece eternidades soterrada/e só sobe para a superfície/através dos tubos de filtros alquímicos e não da causalidade natural./ela é filha bastarda do desvio e da desgraça,/minha alegria: um diamante gerado pela combustão, como rescaldo final de incêndio”.

[…]

O culto à velocidade, no contexto apresentado, se coloca como fruto de um imediatismo processual que celebra o alcance dos fins sem dimensionar a qualidade dos meios necessários para atingir determinado propósito. Tal conjuntura favorece a lei do menor esforço – a comodidade – e prejudica a lei do maior esforço – a dignidade.

Desacelerar é preciso. Acelerar não é preciso. Afobados e voltados para o próprio umbigo, operamos, automatizados, falas robóticas e silêncios glaciais. Ilustra bem esse estado de espírito a música Sinal fechado (1969), de Paulinho da Viola. Trata-se da história de dois sujeitos que se encontram inesperadamente em um sinal de trânsito. A conversa entre ambos, porém, se deu rápida e rasteira. Logo, os personagens se despedem, com a promessa de se verem em outra oportunidade. Restrito a uma linguagem fática, percebe-se um registro de comunicação vazia e superficial, cuja tônica foi o contato ligeiro e superficial construído pelos interlocutores: “olá, como vai?/Eu vou indo, e você, tudo bem?/Tudo bem, eu vou indo correndo,/pegar meu lugar no futuro. E você?/Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono/tranquilo, quem sabe?/Quanto tempo…/Pois é, quanto tempo…/Me perdoe a pressa/é a alma dos nossos negócios…/Oh! Não tem de quê./ Eu também só ando a cem (…)”.

Como modelo alternativo à cultura fast, temos o movimento slow life, cujo propósito, resumidamente, é conscientizar as pessoas de que a pressa é inimiga da perfeição e do prazer, buscando assim reeducar seus sentidos para desfrutar melhor os sabores da vida. Sobre o assunto, Carl Honoré escreveu o livro Devagar (2007). Momentos antes, o elogio da lentidão já tinha sido feito pelo compositor Eraldo Divagar, na sábia canção Devagar, devagarinho (1995), imortalizada por Martinho da Vila. O apressado é aqui retratado como um sujeito desastrado, que, por conta da vida alucinante, vai acabar tropeçando, podendo, assim, se machucar, além de perder a paciência e a compostura.

Quem tem pressa – continua a música – sofre do mal de querer abarcar o mundo. Agindo assim, “deu com a cara no asfalto/se virou, olhou pro alto/com vontade de chorar”. Como ensinamento, eis o bordão: “devagarinho/é que a gente chega lá”. Fica a lição de vida: “e desse jeito/vou driblando os espinhos/vou seguindo o meu caminho/sei aonde vou chegar”. Ou seja, apressado você cansa, devagar você alcança.”

Creio que essa seja somente a ponta de um problema ainda maior e que se reflete como normalidade em todas as esferas: as redes, ditas, sociais. Bom, mas isso já é conversa pra um outro post.

Não sei se cedo ou tarde (se é que se pode pensar assim), mas eu tenho tentado desacelerar. O efeito disso tem sido o seguinte: se, por um lado, sinto-me produtiva; por outro, tenho mais condições de pensar sobre a vida e o mundo, o que tem sido uma angústiva. Angústia por muita coisa não fazer muito sentido. Sobre o trabalho, dizer algo é chover no molhado. Agora, sobre as relações pessoais, pensar sobre isso, tem me deixado realmente descrente da humanidade. Nesse contexto, amor e amizade parecem até piadas de mal gosto…

Bom, mas isso também já é conversa pra um outro post.

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9 comentários

  1. Oi Profiz, desculpa não ter deixado a agenda dos saraus ainda, mas é que tá muita correria aqui, acho que até o fim do feriado prolongado consigo…
    Só passei aqui pra deixar um oi e também porque lembrei à pouco de você, acabo de chegar do Slam da Guilhermina e hoje tivemos a presença de uma poetisa francesa competindo (copa do mundo de slams) como lembrei que você fala francês (acho) só queria te dizer que você perdeu a oportunidade de apreciar este evento único da nossa poesia popular, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…
    Infelizmente desta vez acabei estourando o limite de tempo e fiquei em quinto lugar, aff……………

    • Oi Rafael! Que bom que lembrou de mim! Com certeza eu iria adorar… Poxa vida, não se preocupe, depois que você me disse que os saraus têm seus blogs específicos, eu mesmo iria procurar, mas como por aqui também está tudo corrido, ainda não tive tempo…

      Você não imagina o quanto fico feliz em saber dessas suas notícias! 🙂

      Beijos,
      Érika

      • Olha que legal…
        Vou deixar aqui os blogs dos que irei esta semana:
        Terça-feira – Sarau Suburbano Convicto (Ocorre toda terça-feira exceto se cair num feriado)
        à partir das 20h00, Rua 13 de Maio, 70 – Bixiga, Centro de SP( a 10 min. da estação República do Metrô) http://buzo10.blogspot.com.br/

  2. O outro é Quarta-feira:
    Sarau da Ocupa – Av. São João, 588, Centro de SP (a 3 minutos da estação República de Metrô)
    Dois links para que entendas melhor, pois este não é um sarau comum, é o sarau mais quente de SP…http://projetocupacaocultural.blogspot.com.br/
    e uma matéria feita por Alessandro Buzo, que apresenta o Sarau Suburbano (minha casa poética), sobre o sarau da ocupa…http://globotv.globo.com/rede-globo/sptv-1a-edicao/v/sarau-em-antigo-predio-no-centro-de-sp-atrai-poetas-de-varias-regioes-da-cidade/2051759/

  3. Agora, toda segunda segunda-feira de cada mês, às 21hs, faremos o Sarau no Espaço Clariô de Teatro, R: Santa Luzia 96 – Vila Santa Luzia, Taboão da Serra. SEGUE LINK DO GOOGLE MAPA https://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&q=rua+santa+luzia+96+tabo%C3%A3o+da+serra&ie=UTF-8 Segue a programação dos próximos Saraus : 07-09 SARAU DO BINHO NO SESC BERTIOGA ÀS 17HS 10-09 SARAU DO BINHO NO ESPAÇO CLARIÔ DE TEATRO 19-09 SARAU DO BINHO NA SEMANA DE ARTE E CULTURA DA USP ÀS 18HS 22-09 SARAU DO BINHO NO SESC OSASCO ÀS 16HS 29-09 SARAU DO BINHO NA BIBLIOTECA MARCOS REY ÀS 15HS

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