97/365 Trem da memória 

Meu tempo mínimo (raro e mínimo mesmo!) dentro da cápsula que me transporta diariamente é de 2h. São 14h na semana, são 56h no mês, são 672h no ano… E 672h equivalem a… 28 dias inteiros gastos em deslocamentos e vedada numa caixa de lata. E, mesmo com os inconvenientes de um transporte público de baixa qualidade e de todos os problemas decorrentes de um contato tão direto com as pessoas, às vezes é possível fazer trajetos com um pouco mais de conforto. Hoje, por exemplo, como não tinha que carregar tanto peso nem compromissos urgentes após a escola (mais a certeza de uma carona da Val na saída até o metrô) pude ir e voltar para casa no mesmo tempo da locomoção individual. Só que com uma vantagem: pude começar a ler Ruffato.

E o início de De mim já nem se lembra revelou-se uma das leitura tão intensa e doída, como há muito eu não lia. Memória é sempre uma forma de ficção e quando esse tom confessional é uma ficção que se parece autobiografia, aí sim é uma narrativa daquelas… O próximo passo será o de verificar como o autor vai trabalhar essa parte epistolar, pois a memória de uma família vai de montando a partir dessas cartas entre o irmão e a mãe, ambos mortos quando o narrador começa a lê-las e as publica. 

Já fui feliz hoje conseguindo ler, num tempo que seria considerado perdido. E, enquanto meu desejo intenso de um dia gastar menos tempo em um deslocamento (público, bike, patins, patinete, pé 2) não se concretiza (desejo associado a um outro: poder acordar às 7h da manhã!) vou arranjar formas de ser feliz mesmo quando estiver dentro da cápsula, além de tentar baixar esse tempo de clausura. Por ler, Ruffato, por me emocionar com uma narrativa intensa, por ser transportada com rapidez e ar condicionado, por fazer uma pequena caminhada de 20 minutos, por bater papo durante uma carona, por pagar metade da passagem de trem por causa do Tio Chuchu (quem diria!), por ter a intenção de transformar o peso desses 28 dias… sou imensamente grata! 🚶🏽🚉🚌🚶🏽

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4 comentários

  1. Um amigo me disse esta semana que um sábio se caracteriza por:
    Uma pessoa que aprende algo, deixa que isso “lhe passe” (vive a experiência), e transmite este conhecimento para outra pessoa.
    E cada vez que isso acontece, mais sábia essa pessoa é.
    Vejo em ti a caracterização de uma pessoa sábia.
    Admiro, pois quero ser como você (em algumas coisas).
    Fico cada vez mais convencida de que és uma de minhas mestras.

    • Flavinha, o seu texto foi uma das coisas mais lindas que eu já li. Numa semana tensa de entrega de notas e de me questionar pela milionésima vez o porquê de ter feito essa escolha, ler seu texto me trouxe uma alegria e uma agonia… Que tal trocar esse lance de “sábio/a” por “companheiro/a”? Afinal, muito melhor se fizermos uma ajuda mútua para “compartir” (como se diz em espanhol) e um ajudar o outro a superar suas dificuldades… Assim, fico mais à vontade, certamente…
      Muito obrigada, minha querida, do fundo de um coração que já estava sem esperança no ser humano…
      Beijos e beijos

  2. ms. salty… percebe nas palavras finais do comentário acima onde está seu legado, a diferença que você faz? don’t take that for granted. (small victories…)

    • Obrigada por dizer isso! A Flávia e você me fizeram suar os olhos… Só falta eu acreditar nisso aqui no meu kokoro, pra não jogar tudo pro alto…
      Beijos e beijos

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