105/365 Conhecendo Ruffato

A primeira vez que ouvi falar do Luiz Ruffato foi na Alemanha. Na Feira Internacional de Frankfurt (out/2013) não se falava em outra pessoa que não o escritor que fez a abertura, naquela edição em que o Brasil era a nação homenageada.

O que é escrever num país como o nosso? Polêmico e contundente, seu discurso foi um tapa na cara de quem só vê o Brasil como carnaval, futebol, samba e alegria, pois mostrou o paradoxo que o país vive. Para mim, o discurso chegou antes que o escritor e atiçou minha curiosidade sobre o autor. E eu li “De mim já nem se lembra” com o apetite de quem deseja conhecer alguém interessante. O livro virou minha leitura de trem e eu o terminei hoje. Simples, sensível e triste, triste até não mais poder. Daquela tristeza paupável que consome a personagem e chega até nós.

Eu gosto muito de narrativas que se desenvolvem a partir de missivas. O protagonista nos dá o tom da sua história e depois entra com as cartas de seu irmão Célio, jovem mineiro que vem tentar a vida em São Paulo, em pleno anos 70, no boom do milagre econômico. Esse irmão passa pelo sentimento de perda da família, trabalha alucinadamente, não consegue estabelecer vínculos afetivos mais intensos, percebe-se explorado, revela seu olhar conservador e machista, sente-se responsável pela família lá em Minas Gerais e é a personagem que vai criando, pouco a pouco esse ar de tristeza e de perda tanto da família, como da esperança. E irônico é o lampejo de vida e alegria na última carta dele para a mãe.

“Diadema, 5 de março de 1978

Mãe,

Combinei com um colega que mora em Mutum e vou estrear o carro na estrada. Tirei carteira na semana passada e estou dirigindo bem que é uma maravilha. Vamos revezar na direção até Leopoldina. Eu deixo ele lá e ele pega um ônibus até Mutum. Já está tudo acertado, não se preocupe. Eu vou dirigir até metade do caminho, ele dirige até Leopoldina e eu pego de novo no volante até Cataguases, descansado. E como não temos pressa de chegar, se a gente cansar a gente para e dorme na beira da estrada, não se preocupe. Estou doido para vocês verem o carro. A senhora sabe que eu gosto de capricho, então andei botando umas coisas nele que não tinha, calota, estendi chenil nos bancos, mandei lavar o motor com óleo de mamona, lustrei ele, uma beleza. Eu nunca imaginei que ia gostar tanto de carro como estou gostando.

Bom, mãe, envio junto com essa toda a minha saudade, deste seu filho querido,

Célio”

Gratidão ao me deparar com um livro como esse. Eu me encontro em leituras assim, que revelam aquilo que vai na alma e que ninguém tem coragem de expressar, pois a hipócrita felicidade do sucesso photoshopado das redes sociais virou a nova máscara que está pegada à cara. E como diz o seguinte trecho do bom e inesquecível poema “Tabacaria” do Fernando Pessoa:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”


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