Pelos labirintos de Veneza

Hoje faz um mês que, pela primeira vez, eu me perdi pelos caminhos de Veneza. Nem precisei me esforçar para isso acontecer, pois chegar ao hotel já se mostrou uma aventura ao ter de atravessar quatro pontes (duas grandes e duas pequenas) obrigatórias e mais duas pontes à toa… E, perder-se e ter de andar à toa por Veneza (mesmo arrastando mala), já é um prazer. Se a cidade conta com cerca de 400 pontes, então não cheguei nem perto de ficar realmente perdida! Fica, porém, a observação: dos caminhos que me embrenhei, foi a única vez que me perdi por lá.

E, que saudade enorme apertou meu coração ao constatar esse tempo que já passou… Parece sempre que, a cada lugar novo que conhecemos, a experiência é sempre incrível. E, é. Sempre. Mais incrível que a anterior tinha sido incrível? Não, necessariamente. Incrível como só esse novo lugar pode ser, sendo ele mesmo, naquele momento. Não há melhor clichê para repetir que não este: Veneza é incrível!

Resta saber o porquê, logo que tudo por lá é antigo e caindo aos pedaços (charmosamente caindo aos pedaços)… O barulho constante de água, a ausência de automóveis, motos e bicicletas, o constante exercício de andar, o descansar na carona de um Vaporetto, o subir e descer de escadas, as janelas com flores, os italianos e as italianas coloridos e formalmente arrumados, a música no ar (mesmo nos momentos sem música)…

Ler Otelo antes de ir para Veneza foi essencial para eu pensar em sua angústia interior, seu labirinto psicológico e como ele ficou perdido naquela terra, naquelas pontes, naquelas águas, naquela mulher veneziana… Por mais que o desfecho dessa trágica história tenha ocorrido em Chipre, foi em Veneza, a Serenisima, que ele deixou perdido quem ele era… Uma tragédia do genial William Shakespeare, também transformada na intensa ópera de Giuseppe Verdi, traduz todo o impasse de uma sociedade já tão separatista. Refleti muito na leitura, quando andava por lá…

A alma de Veneza é musical, por isso andar por ela, ouvindo-a é um momento de meditação. Minha ignorância musical não me havia permitido saber que Vivaldi era de lá, mas descobri quase ao mesmo tempo em que vi a cidade pela primeira vez. Justo Vivaldi que fez meu coração bater mais forte, em uma corrida desenfreada pelo parque do Ibirapuera, para não perder o concerto a céu aberto que começava com “La Primavera”, o concerto nº 1 das Quatro estações… Isso aconteceu na virada do século XX para o século XXI e me fez fã de concertos (ainda que a ignorância ainda teime em me acompanhar) de música clássica.

Foi uma grande emoção poder ouvir Vivaldi em Veneza, numa terça-feira à noite, como se fosse uma pessoa com uma vida normal: ir a um concerto durante a semana, andar pelas ruas, usar o transporte fluvial público, não ter pressa e perceber que ninguém lá estava com pressa também… Essa experiência foi intensa, emocionante e fenomenal, certamente meus sentimentos pela cidade não seriam os mesmos caso isso não tivesse ocorrido. Se “A primavera” me fez tremer internamente na virada do século, agora é “O inverno” que reverbera profundamente em mim.

Essa alma musical da cidade é algo arrebatador, assim como a charmosa decrepitude (não, lá não é um cortiço, estou exagerando!) e as incríveis esculturas espalhadas pela cidade. Porém, falar das esculturas ficará para um outro dia. De verdade, espero voltar muitas vezes para lá, espero esperar as cidades do Veneto, espero descobrir o fio hereditário que saiu de algum ponto daquela região, com o sobrenome Cherubini. Ciao!

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Escultura “SUPPORT” de Lorenzo Quinn
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