19 km depois…

A bicicleta foi uma constante na minha infância (assim como os patins e a bola de vôlei) e eu lembro nitidamente o dia em que aprendi a andar sem rodinhas. Eu achava linda a minha Monark verde e o Tio Valter estava comigo na rua da casa de meus avós. Só me lembro dele ter dito um pouco bravo que tiraria aquelas rodinhas e que eu andaria sem elas.

Ele ficou segurando pelo banco e eu pedalei o mais forte que pude, quando dei por mim, ele estava com um sorriso e eu andava sozinha. Esse foi meu  primeiro alumbramento e ele foi meu tio predileto por muito tempo, até se demitir da função. A segunda bicicleta foi uma Ipaneminha com cestinha e uma placa no bagageiro com meu nome. Foi para a minha época cycle chic e ela fazia parceria com a prima verdinha da Vânia (onde estará ela?). Andamos muito!

Depois, já adulta e trabalhando, até comprei uma mountain bike, mas a bike ficou encostada até minha mãe se encher de razão e tomar a frente do guidão. Divertiu-se, por vários anos, até não poder mais usá-la. O destino da roxinha foi doação, resolução rápida pra uma série de problemas: espaço na garagem, decrepitude por falta de manutenção, roubos de bicicleta na rua e, sim, tirar um objeto da frente de quem não poderia mais usá-lo.

O hiato de tempo foi imenso até eu subir em uma bike novamente, o que aconteceu em 2013, pelas ruas de Berlin. Foi a primeira vez que eu andei por uma cidade de bicicleta, algo inimaginável para quem via a bicicleta só para andar em ruas residenciais e parques.

Dia memorável, acompanhado de uma série de emoções: circular pela cidade (na ciclovia e na faixa de ônibus, sem levar “finas educativas”!), depender de uma pessoa com GPS, estar em um grupo de cerca de 10 amigos (e todos passando pelo encantamento por ter tido “coragem” de fazer isso), precisar chegar nos lugares (Judish Museum, Gemäldegalerie, Pergamun Museum) para encontrar demais amigos e conseguir voltar para o hotel (lógico que sem antes perder um integrante do grupo e todos se desesperarem por algumas horas…). E esse, sem dúvida, foi meu segundo alumbramento ciclístico e que veio num kit perfeito: bicicleta + cidade incrível + condições de circulação segura.

Alemanha 258
        Brandenburg Tor ao fundo e “wilson” era o líder e estava com GPS, eu era o ferrolho e documentei vários trechos

Depois dessa experiência de 2013, só agora voltei a subir em uma bike. E, para minha surpresa, não mais bike típica de um paulistano: mountain bike para se circular na cidade (confesso que não fazia ideia de que essa não é uma bicicleta adequada para a cidade!). Confesso, a “posição de pilotagem” não é das melhores e não sinto a bicicleta firme nas minhas mãos, o que me dá um pouco de medo. É todo um processo de adaptação a uma bike urbana.

O trajeto foi pensado para aproveitar as ciclovias da Berrini e da Faria Lima até o Sesc Pinheiros (afinal, aquele sorvete de iogurte vale cada km de pedalada!). O trajeto da ida foi fácil, mas na volta a ciclovia sofreu uma metamorfose e mudou de lugar, seguindo pela Helio Pellegrino, o que significa que metade do trajeto de volta foi pela Avenida Santo Amaro.

Pela falta de exercício, minha maior preocupação era a das pernas não aguentarem o tranco dessa pedalada mais vigorosa… Descobri que meu pescoço não vira o suficiente para eu olhar pra trás e que meus braços precisam de muito mais força para segurar firme o guidão tão baixo… Senti meu coração batendo muito forte (aliás, sensação muito boa, ainda mais pra quem já não o sentia bater) e na descida em obra até a Água Espraiada (sim, eu sei que a avenida tem outro nome, mas eu me recuso a usá-lo) aconteceu algo estranho…

Eu percebi uma ruptura entre as sensações físicas e as sensações emocionais. Pelo lado físico, eu só pensava que eu não conseguia segurar forte o guidão, que o pneu fino poderia derrapar facilmente naquele trecho em obras, que os carros estavam próximos demais, que cair e me ralar inteira era um destino quase certo, a ponto de eu me encolher já sentindo minha pele carcomida pelo asfalto…

Pode ser que a forte batida do coração tenha despertado o lado emocional, afinal não havia o porquê pensar naquilo num instante em que a atenção estava completamente voltada para a situação sobre duas rodas. O que aconteceu é que, de repente, algumas narrativas começaram a se despregar sabe-se lá de que cafofo do inconsciente reservado aos insucessos amorosos e mal resolvidos. Engraçado (ou trágico) como todos eles tinham o mesmo ponto em comum: coita pelo amor não correspondido. Lógico que essa percepção da repetição do padrão veio depois desse momento de uma iminente queda. Na hora mesmo, eu só me senti livre de tudo isso, me senti leve por perceber que há muito havia me soltado dessas correntes emocionais. A sensação de perceber isso foi muito, muito boa e extremamente leve para perceber que o coração podia pular o quanto fosse, pois havia espaço. Esse foi o terceiro alumbramento, quando estava quase finalizando os 19 km do trajeto. Minha vontade (e nem era fraca!) era a de conseguir fazer isso sempre, toda semana… Dormi naquele domingo com esse propósito, acordei na 2ª feira e parece que nunca mais saí dela, há quase 3 meses. Como diz Drummond, mais um “paralítico sonho” a se juntar a uma turminha bem grande já. Quem sabe não seja a hora de fundar a AASD para reabilitar todos esses sonhos paralisados?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s