Estamos cegos

“Cegos. O aprendiz pensou: “Estamos cegos”, e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.”

José Saramago, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, proferiu um discurso tão bonito, que em algumas partes, o coração até dói. O início, por exemplo, quando ele conta sobre seus avós, de como eram sábios, humildes, analfabetos e criadores de porcos (no inverno, os porquinhos dormiam na cama com eles para todos se aquecerem…) ou quando ele fala do difícil e indigesto “Ensaio sobre a cegueira”. É um livro duro, dolorido e cruel e só agora, ao conhecer o discurso eu entendi o porquê: perder o respeito em relação ao semelhante é engendrar por essa inflexibilidade de sentimentos.

Providencial refletir sobre isso em uma época em que tantas pessoas que se dizem “de bem” e “cristãs” adotam uma postura de total desrespeito ao semelhante. Como questiona a pop Monja Coen, do que será que querem nos distrair, com tanto barulho? A mídia que alardeia e demoniza incansavelmente, está recebendo quanto para desviar a atenção das pessoas… E desviar de quê?

Eu continuo bem de olho nas negociações (que não vão nada bem) da Convenção Coletiva, assim como no que se conseguiu de dissídio pra minha categoria (3,15% como benesse adiantada, sendo que as mensalidades subiram cerca de 8%… Bom, professores da USP têm recebido 0% há 3 anos, então estou na vantagem!). Eu continuo atenta aos estragos já feitos pela PEC 55/241, pela Reforma Trabalhista (já há mudanças sérias na minha área), pelo BNCC (ilustre “assessoria” do Alexandre F…, educador de alto nível), pelo adorável, simpático e gestor da minha cidade, pelo Picolé de chuchu (sempre com processos ou arquivamentos sigilosos) no ensino superior virtual e real…

Olhar, ver, reparar, estudar, refletir, analisar, lutar pelo coletivo… É disso que nosso país precisa, ao invés de ofender, berrar, impor, desrespeitar, lutar pelo individual, por mais que os “imbecilizadores profissionais” façam o mesmo, para dar o exemplo.

Há muito o que analisar e se preocupar, por isso não me abalo por tempestade em copo d´água que tem sido utilizada maquiavelicamente como matéria-prima de manipulação, ainda mais porque não perdi o respeito pelo semelhante, muito menos por mim. E, ainda Saramago, para terminar essa reflexão:

Se podes olhar, vê.

Se podes ver, repara.

 

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