Ineditismo ciclístico

“As palavras não curam, mas são uma trégua no desamparo, melodia na solidão” é o que diz o querido Milton Hatoum na crônica “Um sonhador”. Hoje faz uma semana que fiz o pedal para o autódromo e ainda não havia escrito nada a respeito. Meu desejo era o de escrever logo no dia seguinte, não consegui… Eu até fiquei esperando a vontade de falar sobre esse dia passar, mas as sensações e as frases continuaram se formando em minha mente e no meu coração todos esses dias.

Então, eu resolvi dar uma trégua no desamparo desse caótico cotidiano repleto de prazos e demandas (quiçá estas também tivessem aumentado somente os 3% da remuneração!) para escrever sobre o último dia 31. Semana passada foi atípica em todos os sentidos: mais bicicletas nas ruas (aqui!), menos poluição (aqui!), um belo e necessário feriado e um pedal de 47,1km que fez com que eu concluísse a minha meta de 100km/mês pedalando.

Há muito tempo eu não ficava tão ansiosa para um evento, sem contar que a lembrança do meu pai já estava me acompanhando fazia dias. Ao chegar à Ponte Estaiada e encontrar aquele mundão de gente (a hora que eu passei fui número 5.008), a galera toda feliz, o som alto, a satisfação de ainda ter kit (confesso que fiquei decepcionada por não ter vindo um tucaninho de pelúcia… 😛 #sqn!) para ser a minha primeira lembrança de m evento e fazer a estreia oficial da Nina (ôh maravilha de bicicleta!) deixou meu coração bem leve.

A ida foi por dentro dos bairros (Chácara Santo Antônio, Alto da Boa Vista, Socorro, Veleiros e Interlagos) e a volta pelas avenidas Interlagos e Nações Unidas. Dentro do autódromo foram quase duas horas de diversão e cansaço. Eu nunca havia entrado no lá pelo portão 7: uma descidinha com direito a curva e túnel, já com vista para a pista. Ao vislumbrar a pista, muita gente já estava circulando alucinadamente e foi uma imagem bonita de ser ver, aquele bando de luzes vermelhas piscando, era muita gente! Afinal, quando chegamos ao autódromo, apesar de ser 18h, já estava bem escuro.

Dei minha primeira volta morrendo de medo das pessoas se atropelarem e haver uma queda, também de não conseguir cumprir a distância da temida subida dos boxes e ter de empurrar a Nina com a língua pra fora. Naquela altura da noite, eu já havia quebrado o recorde de pedalar, o que me deixou apreensiva. A cada parte da pista com asfalto impecável, um sorriso se abria: ora era um que gritava “uhuhuhuhu” e se divertia como criança nas curvas e descidas, ora outro com macacão (um parecido com aquele azul lindo de quando ele era da Williams) e capacete (o lendário verde e amarelo) do Senna, ora outro com caixa de som e a inesquecível música da vitória, além da galera que, antes de descer, parava pra apreciar a Curva “S” do Senna….

20180531_192643
Até a Nina parou pra ficar olhando o “S”…

Naquele momento, eu revivia toda uma infância/adolescência em que ouvia o som dos motores da minha casa, em que ia com meu pai (que adorava F-1) até o portão do autódromo no dia da corrida só pra ver o movimento e, principalmente, os poucos momentos de harmonia que tivemos juntos. Após a primeira volta, parei e acomodei a Nina no gramado, sentei-me e fiquei olhando a pista, as luzes, a emoção ou cansaço das pessoas e fiz um convescote com minhas lembranças e meu pai. Foi um momento único comigo, com ele, com as lembranças, com o bem-estar que eu estava sentindo e com a vontade de tê-lo ali, ajudando-me a olhar tudo aquilo. Não sei como explicar a epifania do momento, porém foi como se tivéssemos tido mais uma chance para compartilharmos algo.

No total, fiz três voltas na pista (quase 13km) e alcancei a incrível marca de 42km/h! Uhuhuhuhuhuhu… Na saída, em meio a centenas de pessoas, ainda encontrei uma vizinha de infância que se mudou do bairro e que eu não via há muito tempo, mas que me disse ter saído da depressão (por conta da morte traumática do pai, aliás na rua da minha casa) desde que começou a andar de bicicleta. Só a galera dela contava com 80 pessoas! Encontro de acaso e que também deu uma aquecida no coração.

As palavras desse relato formaram uma melodia única para essa memória (PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM / PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM) e, de fato, deu-me uma trégua nesse desamparo existencial. Que venham mais pedais e se construam mais memórias afetivas!

 

 

Anúncios

6 comentários

  1. Sorri e o olho ficou um tiquinho mais úmido ao passear por suas palavras… lembrei-me do meu pai me chamando de madrugada para assistir a corrida, quando acontecia fora do Brasil. Meu pai, meu irmão mais velho e eu, os três aconchegados no sofá acompanhando os carros, as curvas, o Senna… eu era muito pequena, mas tenho essa memória muito bem guardada no meu baú de lembranças, que você, com toda sua delicadeza ao escrever, me ajudou a abrir e vasculhar também minhas memórias afetivas… gratidão!

    • Esses momentos são bem difíceis de se colocar no papel, mesmo sendo muito importantes como forma de catarse… Fiquei feliz em ter conseguido sentir e depois exteriorizar, esse momento criou uma memória afetiva muito especial para mim. E você que é poeta, deveria eternizar esse momento também. Fiquei só imaginando que fofura você era pequenina assim! 😀 Agora, um bom eufemismo é “fiquei com os olhos suados”! Obrigada, sempre, pelos comentários. ;***

  2. não acharia ruim se todas as quintas fossem feriados e nós pudéssemos invadir aquele espaço. o evento foi um verdadeiro “ocupa são paulo”! agora… impressionante como a música gruda na cabeça… o_O

    ó só… tô sentindo falta das postagens. e eu gostei muito dessa. 😉 (nem “fiz pressão” para que ela saísse. heheh)

    • Ah, como seria bom mesmo! Fiquei feliz por você não ter se importado em fazer um pedal tão iniciante assim… Feliz, mesmo! Pois é, um “ocupa…” com direito a um “despertar na cidade”, pois não me esquecerei dos sorrisos pelas ruas e dos incentivos veementes na subida do Walmart. Aquilo foi sensacional! Amazing!
      O melhor de tudo é que mostra uma cidade com uma população viva e interagindo. Eu adoro observar a metrópole e a população que nela vive, de bicicleta fico parecendo aquele bonequinho de ar (vulgo biruta), olhando para todos os lados. Quero ver tudo!
      Eu também sinto muita falta de escrever as postagens… Normalmente, tenho deixado a vontade de postar passar. Ter-me lembrado dela todos os dias da semana encheu-me de coragem para sentar e escrever (lógico que deixando tudo o que tinha pra ser feito de lado…).
      Beijos e obrigada! ;***

      • mesmo que o carrasco não tivesse rolado naquela manhã, eu iria. afinal, já havíamos combinado de marcar presença lá. 😉 a diferença residiria no fato de que o pedal sério do dia se daria no autódromo – esperando que a turba quietasse o facho, porque na 1a volta era praticamente impossível! o_O

        comentei contigo no dia e em outras ocasiões que as pessoas recebiam a “comitiva” com sorrisos estampados de uma orelha a outra. é mais ou menos o que acontece todos os domingos na av. paulista. ou seja: se você der o espaço, as pessoas vão ocupá-lo. 😀 (na verdade, é aquela idéia já implementada em algumas cidades e presente no livro – manja aquela leitura encalhada cujo título se chama “apocalipse motorizado”? haha -: a cidade precisa ser planejada para as pessoas, e não para essas caixas de metal ambulantes que nos discretizam, compartimentam e apartam de tudo.)

        mas… o que eu gostei mesmo foi de ver seu sorriso nas fotos. pra mim, é como tudo tem de ser: leve, descontraído. 😉

      • “Cidade para pessoas” é no que acredito e que se confirmou com o que li do Jan Gehl sobre urbanismo. Puxa, um treino inteiro no autódromo seria bem legal, não? Da próxima vez, 71 voltas como a F-1, que tal? Ainda bem que o Rogério registrou e mandou as fotos, eu amei também!!! ☺️😍

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s