Um caso de identidade, sempre isso!

“Meu caro companheiro”, disse Sherlock Holmes quando estávamos sentados, a lareira entre um e outro, em seus aposentos em Baker Street, “a vida é infinitamente mais estranha do que tudo que a mente humana seria capaz de inventar. Não ousaríamos conceber coisas que, na realidade, não passam de lugares-comuns da existência. Se pudéssemos sair voando de mãos dadas por aquela janela, pairar sobre esta grande cidade, remover suavemente os telhados e espreitar as esquisitices que estão acontecendo, as estranhas coincidências, as maquinações, os quiproquós, os maravilhosos encadeamentos de fatos, que atravessam gerações e conduzem aos resultados mais estapafúrdios, toda a ficção, com suas convenções e conclusões previsíveis, pareceria extremamente batida e inútil.”

Esse é o primeiro parágrafo do conto “Um caso de identidade” de Sir Arthur Conan Doyle, escrito em 1891, época em que o autor jamais poderia imaginar que esses telhados poderiam ser removidos e que as redes sociais pudessem expor todas as bizarrices possíveis, todas elas inimagináveis para o melhor dos escritores. O terror psicológico explorado na ficção de Edgar Allan Poe ou a situação mais bizarra apresentada para análise de Sherlock Holmes poderia, ao menos, chegar aos pés da realidade estapafúrdia que se descortina aos nossos olhos.

O conto trata de uma questão simples: uma moça que se ilude com as promessas amorosas e, que depois de jurar fidelidade eterna sobre a Bíblia (mesmo que ela não compreendesse os perigos que rondavam o casal), vê-se abandonada pelo noivo, no dia do casamento. Acionado para desvendar esse “mistério”, que aos olhos de Sherlock mostrou-se de simples resolução por ser uma situação recorrente, o detetive vê-se impotente por não conseguir punir o noivo canalha (apesar de acertar em cheio quem era, assim como os motivos vis da situação) nem poder alertar a noiva enganada sobre a identidade verdadeira de seu amado. Sherlock termina o conto dizendo ao Dr. Watson que “Talvez se lembre do velho ditado persa: ‘Há perigo para o homem que tira o filhote do tigre, mas também há perigo para aquele que destrói a ilusão de uma mulher.‘ Há tanto sentido em Hafiz quanto em Horácio, e o mesmo conhecimento do mundo.”

Curioso pensar na questão da falsa identidade, das promessas vagas, das juras e na falta de disposição Miss Sutherland (“Ele me encontrará pronta quanto voltar”) em perceber a situação e mudá-la. Ela recebeu “migalhas” e promessas que foram suficientes para turvar-lhe a análise da situação, usar o pensamento lógico, ter a percepção dos sinais de canalhice. Pois é, a arte mimetiza a vida, como já mostrava Aristóteles em relação ao teatro na sua Poética, porém ela ainda é uma pálida imitação dela, mesmo nas maiores tragédias gregas, arremataria Mr. Holmes.

 

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