Sutilezas do Bruxo do Cosme Velho

Quando eu comentei que minha segunda não-recomendação de leitura foi “Dom Casmurro”, eu não completei dizendo que também li essa obra com interesse e bom humor. Ao contrário do “Vidas Secas”, no qual eu chorei pela aridez humana, neste eu ri. Pois é, ri. Quem me conhece, sabe que tenho um, vamos dizer, “humor francês” em obras cômicas. 

Talvez tenha por meio da leitura de “Dom Casmurro” quem primeiro me ensinou que posso considerar algumas situações engraçadíssimas (de tão ridículas), sem gargalhar. Aperfeiçoei essa apreciação pela ironia, quando li “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e talvez tenha sido contagiada pela ideia fixa de Brás, por isso não desgrudo o pensamento de um capítulo incrível do livro. 

O capítulo pelo qual ando obcecada chama-se “O vergalho” (LXVIII).

Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso, e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova.

— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!

— Meu senhor! gemia o outro.

— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.

Parei, olhei… Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.

— É, sim, nhonhô.

— Fez-te alguma coisa?

— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.

— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.

— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!

Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!

Alguns itens para reflexão:

  1. VERGALHO: 1. Membro genital do boi ou do cavalo, depois de cortado e seco. 2. Chicote; azorrague. (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa);
  2. A obediência de Prudêncio, mesmo não sendo mais escravo do pai de Brás;
  3. “um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro.” Transmitir aquilo pelo qual passou ou reproduzir um comportamento que admirava, pois não se reconhecia mais como negro?;
  4. Prudêncio era dono do escravo e escravo voluntário?;
  5. Será que ainda existem situações análogas ao do Prudêncio nos dias de hoje? Será? Será? Será? #ironia;
  6. Hipóteses sobre quem seria esse maroto sutil;
  7. Admirar a construção da ironia em vários pontos (é de fazer suar os olhos!), assim como o fato que esse poderia ter sido um capítulo alegre, assim como uma infinidade de reflexões terem sido perdidas.
  8. Observar que é um capítulo bem curto e despretensioso pra composição da história, o que certamente não foi falta de encadeamento narrativo.

 

O fascinante da ironia é que ela se torna atemporal nas mãos de um bruxo, ainda mais se for do Cosme Velho e ainda se chamar Machado de Assis.

 

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