“O arquivo” de Victor Giudice

E tem surpresa melhor que um encontro literário despretensioso? Li um conto hoje (já digo que de 1972) que me fez sorrir e pensar no quanto o insólito na ficção é genialmente revestido de crueldade. Crueldade esta que tem batido, insistentemente, à porta de todos nós (ou “na porta”, dependendo da intensidade ou desespero com que se analisa a atual conjuntura).

Descobri que esse conto foi narrado pelo Antonio Abujamra, no saudoso “Contos da Meia-Noite” da TV Cultura (aqui!). Eu pedia para minha mãe gravar os episódios desse programa (nada de Netflix com todas as temporadas de uma só vez, felizmente!), visto que eu nunca estava em casa nesse horário, pois estava no segundo ônibus, dos três que eu deveria pegar para voltar da faculdade para casa. Porém, esse conto eu não conhecia! Grata surpresa, grata leitura, grata lembrança desses tempos de faculdade e do programa. Ei-lo, na íntegra.

O ARQUIVO

No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Pequena vitória ciclística

Não é uma “ideia fixa” nos moldes machadianos, mas vou falar de novo de bicicleta, enquanto as postagens sobre outros assuntos continuam no rascunho (tenho rascunhos de 2010, só pra dar uma ideia do que eu digo!) e o acontecimento ainda está dentro do mês.

A condição que me impus para a vinda da Nina (minha Caloi City Tour) era a de utilizá-la com frequência, então eu estabeleci a meta de andar 100km por mês. Quem anda de bicicleta sabe que esse número é ridiculamente baixo, mas para mim equivale a um Tour de France, tamanha a dificuldade que enfrento para conseguir me dar esse presente. Mas, isso é tema pra outro post.

Aliada a essa meta, eu tinha também o desafio de aprender a pedalar pela cidade, afinal eu era ciclista de quarteirão em bairro residencial da periferia. Mesmo com a companhia do meu bike anjo (oi, Hermes!) e com todas as instruções dele, eu tive de me esforçar bastante para não ter medo e entender meus deveres e direitos utilizando esse meio de locomoção, quando comecei a circular pela cidade. Do meu aprendizado, no “estágio supervisionado”, ficaram os seguintes itens:

1- Nunca andar pela calçada nem na contramão. A bicicleta segue o fluxo dos carros e calçada é o local do pedestre. E a lei é clara em dizer que o veículo maior PROTEGE o menor e todos protegem o pedestre. Curioso como desde sempre, a “lei da selva” é inversamente proporcional e dita que o maior INTIMIDA o menor e o pedestre que se salve, se puder (eu, por exemplo, quando criança, tive uma fratura tripla no tornozelo, por ter sido atropelada em cima da calçada).

2- Sempre usar os equipamentos de segurança: capacete, iluminação dianteira e traseira. Além de ter sempre um kit de ferramentas e remendo (confesso que ainda não aprendi a lidar com um pneu furado, mas o kit está lá!).

3- Eu devo e posso ocupar a faixa da direita (não na guia, local mais perigoso e propenso a acidentes), de forma assertiva, com atenção redobrada para as investidas dos carros. Interessante que quanto melhor a gente ocupa esse espaço, menos chance do carro dar as perigosas fechadas.

4- Não usar fone de ouvido ou celular durante o pedal (risco alto, proibido e desnecessário) e sempre sinalizar as conversões com o braço.

5- O ciclista deve circular pela ciclovia, quando ela existir, mas pode optar pela via com os carros, caso haja problemas na circulação da ciclovia, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro. Caso aconteça de um ciclista estar na via em lugares em que há ciclovia, pode acreditar que houve uma ponderação para isso: buracos; segurança; necessidade de fazer alguma conversão logo a frente; fluxo grande de pedestres na ciclovia; fluxo grande de pessoas em ritmo de passeio (menos de 20km/h) e/ou com variados meios de transporte diferentes e que deixam o trecho de ciclovia inseguro; necessidade de andar em uma velocidade acima da permitida na ciclovia etc… No trânsito, esses tipos de ponderação sempre ocorrem, quer estejamos no papel do pedestre (quando opta por andar na rua ou atravessar num local sem faixa) ou de motorista (passar no farol vermelho de madrugada num local perigoso, por exemplo)… 😉

Estou contando tudo isso para mencionar a minha pequena vitória na última sexta-feira, dia 18. Eu fui, com a Nina, a um evento no Sesc Pinheiros. Sozinha, com ameaça de chuva e à noite. Tive muito mais coragem do que imaginei que teria, na verdade ela simplesmente surgiu durante o pedal (sim, a vontade de chegar lá para assistir à mesa-redonda de poesia marginal feminina era muito grande!) que foi um marco para mim.

Na ida, fui pelo mesmo caminho que já estou acostumada: Berrini na faixa da direita. Pela primeira vez, talvez porque estivesse sozinha, um cara de um carro incomodou-se demais com a minha presença (detalhe, eu estava sozinha na direita, ele estava na faixa da esquerda, sozinho também) e ficou gritando “Moça, vai pra ciclovia!”. Passei mentalmente todo um checklist da minha situação: capacete, luzes acesas, pista livre, ocupação correta da pista, ciclovia cheia de bikes amarelas e patinetes, chuva no meu encalço, velocidade de 31km/h. Logo que ele não podia me mandar pro fogão mesmo (ir, pra algum lugar, só se for pra ser “gauche na vida”), pedalei ainda mais forte, passei por ele no semáforo e continuei meu caminho, pois o tempo urgia e as gotas já estavam começando a cair. Ao desencanar dos gritos, perdi-o de vista e VRUMMMMMMMMMMMMMMM.

Estava muito quente, lá pelos lados do Shopping Iguatemi as poucas gotas já haviam cessado, a ciclovia estava menos tumultuada e o destino quase chegando. Deixei a Nina no bicicletário do Sesc, tranquei-a, tirei as luzes, a água, o velocímetro digital, verifiquei tudo e corri pro evento (ritual básico). Sim, eu fiquei suada, mas como era na praça externa, logo o ventinho da noite me refrescou. Sentei, fiquei segurando a mochila molhada de suor, o capacete e sem conseguir tirar um sorriso idiota do rosto, estava lá pegado no meu rosto e não saía!

O evento acabou tarde: 22h30 e eu tinha de fazer o caminho de volta. Satisfação 1: conseguir subir a rampa do estacionamento pedalando. É muito inclinada, muito mesmo, e eu consegui. Satisfação 2: fazer o caminho de volta em segurança e sem esmorecer as pernas para conseguir chegar. No trajeto, ciclovia já quase vazia, nenhuma garota no caminho de volta.

Se eu senti medo? Até senti, principalmente no trecho da ciclovia que sai da Rua Funchal, atravessa a Bandeirantes para entrar na Berrini. Lugar sinistro e que eu SEMPRE faço pela rua. No entanto, para minha alegria, não fiquei presa nisso, fui sentindo uma sensação boa de liberdade e atitude. Confesso que cheguei a sorrir me achando a Lara Croft na cena inicial do novo Tomb Raider (hummm… gostaram da referência de cultura de massa?).

Claro que só faltava eu ser a Lara Croft, ter e saber andar numa bike fixa, ser courier em Londres, estar na disputa da raposa ao som de “Powerz” de Avelino e remixado pelo Junkie XL (ah, Google e Hermespidia). Quase nada de diferença, mas o sorriso no rosto de satisfação era o mesmo! Se estiver preparado para assistir a uma cena de ciclismo urbano e selvagem, é só dar o play na cena mencionada!

O fato é que esse acontecimento relativamente banal me fez sorrir e manter o sorriso, me fez sentir a liberdade e a coragem, me fez sentir o coração mais leve… O coração leve, as pernas firmes, o sorriso no rosto, a cabeça nas nuvens e, por esses instantes, cheguei a sentir a leveza daquele que supera todos os seus problemas, todas as contendas emocionais e dá um basta naquilo que não serve mais. É só gratidão que chama isso tudo, certeza.

“Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.”

 

Er Ist Wieder Da… Você sabe quem!

… ou simplesmente “Ele está de volta” (2015), filme alemão do diretor David Wnendt, baseado no livro homônimo de Timur Vermes. Pensa na mistura entre um riso nervoso e um soco no estômago… Conseguiu imaginar? É mais ou menos isso o que essa história causa.

É ficção? Sim, é. É realidade? O pior é que sim! A situação insólita do Führer saindo de seu Bunker no meio de Berlin no ano de 2014 não parece nenhum pouco absurda em comparação com o sucesso midiático dele e as entrevistas REAIS com uma população que concorda e aprova tudo o que ele diz. Como o perspicaz Sherlock já dizia, a ficção é uma pálida, mas muito pálida representação da realidade.

Impressionante como em poucos dias, Hitler já consegue fechar um panorama econômico e político da Alemanha. Mais impressionante ainda como ele se encanta com a nova arma que ele tem para propagação de ideias: a mídia. Cômico como até ele considera ridículos os neofascistas (ah, não me diga!) e trágico como ele propõe algo ainda mais cruel.

E todos riem, riem, riem. Consideram piada uma mimese histórica que, na verdade, não passa de uma representação catártica de tudo aquilo que as pessoas, quando têm uma oportunidade, conseguem colocar para fora. Há pouco tempo, eu acreditava que a sociedade estava evoluindo (sim, acreditava nisso!), pois determinados comportamentos já não eram mais vistos e/ou tolerados. O filme mostra, no entanto, que tudo isso estava muito bem guardado e o RECALQUE acumulado estava prestes a explodir.

Isso na Alemanha, claro! Aqui, num país cordial e amoroso nada disso acontece, muito menos a possibilidade de uma pífia e burra imitação do Führer aparecer para salvar a pátria da crise (e de TODOS os seus males) e permitir que a barbárie e o recalque imperem. Brasileiro esperando salvador da pátria, imagina! Brasileiro que não estuda (muito menos História), que não se baseia em fatos concretos, que não se limita a receber informação do Facebook e do WhatsApp, que esquece o coletivo em detrimento das vantagens pessoais, que não é humano e sensato, que não é equilibrado e coerente… Isso não existe aqui, é coisa de alemão, tão somente.

Essa realidade tão distante de nós é brilhantemente retratada no filme, que vale MUITO, mas MUITO a pena ser assistido, pois nada melhor que um riso nervoso e um soco no estômago pra conseguir fazer enxergar (e assustar!) o que prolifera por todos os lados.

 

 

Ineditismo ciclístico

“As palavras não curam, mas são uma trégua no desamparo, melodia na solidão” é o que diz o querido Milton Hatoum na crônica “Um sonhador”. Hoje faz uma semana que fiz o pedal para o autódromo e ainda não havia escrito nada a respeito. Meu desejo era o de escrever logo no dia seguinte, não consegui… Eu até fiquei esperando a vontade de falar sobre esse dia passar, mas as sensações e as frases continuaram se formando em minha mente e no meu coração todos esses dias.

Então, eu resolvi dar uma trégua no desamparo desse caótico cotidiano repleto de prazos e demandas (quiçá estas também tivessem aumentado somente os 3% da remuneração!) para escrever sobre o último dia 31. Semana passada foi atípica em todos os sentidos: mais bicicletas nas ruas (aqui!), menos poluição (aqui!), um belo e necessário feriado e um pedal de 47,1km que fez com que eu concluísse a minha meta de 100km/mês pedalando.

Há muito tempo eu não ficava tão ansiosa para um evento, sem contar que a lembrança do meu pai já estava me acompanhando fazia dias. Ao chegar à Ponte Estaiada e encontrar aquele mundão de gente (a hora que eu passei fui número 5.008), a galera toda feliz, o som alto, a satisfação de ainda ter kit (confesso que fiquei decepcionada por não ter vindo um tucaninho de pelúcia… 😛 #sqn!) para ser a minha primeira lembrança de m evento e fazer a estreia oficial da Nina (ôh maravilha de bicicleta!) deixou meu coração bem leve.

A ida foi por dentro dos bairros (Chácara Santo Antônio, Alto da Boa Vista, Socorro, Veleiros e Interlagos) e a volta pelas avenidas Interlagos e Nações Unidas. Dentro do autódromo foram quase duas horas de diversão e cansaço. Eu nunca havia entrado no lá pelo portão 7: uma descidinha com direito a curva e túnel, já com vista para a pista. Ao vislumbrar a pista, muita gente já estava circulando alucinadamente e foi uma imagem bonita de ser ver, aquele bando de luzes vermelhas piscando, era muita gente! Afinal, quando chegamos ao autódromo, apesar de ser 18h, já estava bem escuro.

Dei minha primeira volta morrendo de medo das pessoas se atropelarem e haver uma queda, também de não conseguir cumprir a distância da temida subida dos boxes e ter de empurrar a Nina com a língua pra fora. Naquela altura da noite, eu já havia quebrado o recorde de pedalar, o que me deixou apreensiva. A cada parte da pista com asfalto impecável, um sorriso se abria: ora era um que gritava “uhuhuhuhu” e se divertia como criança nas curvas e descidas, ora outro com macacão (um parecido com aquele azul lindo de quando ele era da Williams) e capacete (o lendário verde e amarelo) do Senna, ora outro com caixa de som e a inesquecível música da vitória, além da galera que, antes de descer, parava pra apreciar a Curva “S” do Senna….

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Até a Nina parou pra ficar olhando o “S”…

Naquele momento, eu revivia toda uma infância/adolescência em que ouvia o som dos motores da minha casa, em que ia com meu pai (que adorava F-1) até o portão do autódromo no dia da corrida só pra ver o movimento e, principalmente, os poucos momentos de harmonia que tivemos juntos. Após a primeira volta, parei e acomodei a Nina no gramado, sentei-me e fiquei olhando a pista, as luzes, a emoção ou cansaço das pessoas e fiz um convescote com minhas lembranças e meu pai. Foi um momento único comigo, com ele, com as lembranças, com o bem-estar que eu estava sentindo e com a vontade de tê-lo ali, ajudando-me a olhar tudo aquilo. Não sei como explicar a epifania do momento, porém foi como se tivéssemos tido mais uma chance para compartilharmos algo.

No total, fiz três voltas na pista (quase 13km) e alcancei a incrível marca de 42km/h! Uhuhuhuhuhuhu… Na saída, em meio a centenas de pessoas, ainda encontrei uma vizinha de infância que se mudou do bairro e que eu não via há muito tempo, mas que me disse ter saído da depressão (por conta da morte traumática do pai, aliás na rua da minha casa) desde que começou a andar de bicicleta. Só a galera dela contava com 80 pessoas! Encontro de acaso e que também deu uma aquecida no coração.

As palavras desse relato formaram uma melodia única para essa memória (PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM / PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM) e, de fato, deu-me uma trégua nesse desamparo existencial. Que venham mais pedais e se construam mais memórias afetivas!

 

 

Estamos cegos

“Cegos. O aprendiz pensou: “Estamos cegos”, e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.”

José Saramago, ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, proferiu um discurso tão bonito, que em algumas partes, o coração até dói. O início, por exemplo, quando ele conta sobre seus avós, de como eram sábios, humildes, analfabetos e criadores de porcos (no inverno, os porquinhos dormiam na cama com eles para todos se aquecerem…) ou quando ele fala do difícil e indigesto “Ensaio sobre a cegueira”. É um livro duro, dolorido e cruel e só agora, ao conhecer o discurso eu entendi o porquê: perder o respeito em relação ao semelhante é engendrar por essa inflexibilidade de sentimentos.

Providencial refletir sobre isso em uma época em que tantas pessoas que se dizem “de bem” e “cristãs” adotam uma postura de total desrespeito ao semelhante. Como questiona a pop Monja Coen, do que será que querem nos distrair, com tanto barulho? A mídia que alardeia e demoniza incansavelmente, está recebendo quanto para desviar a atenção das pessoas… E desviar de quê?

Eu continuo bem de olho nas negociações (que não vão nada bem) da Convenção Coletiva, assim como no que se conseguiu de dissídio pra minha categoria (3,15% como benesse adiantada, sendo que as mensalidades subiram cerca de 8%… Bom, professores da USP têm recebido 0% há 3 anos, então estou na vantagem!). Eu continuo atenta aos estragos já feitos pela PEC 55/241, pela Reforma Trabalhista (já há mudanças sérias na minha área), pelo BNCC (ilustre “assessoria” do Alexandre F…, educador de alto nível), pelo adorável, simpático e gestor da minha cidade, pelo Picolé de chuchu (sempre com processos ou arquivamentos sigilosos) no ensino superior virtual e real…

Olhar, ver, reparar, estudar, refletir, analisar, lutar pelo coletivo… É disso que nosso país precisa, ao invés de ofender, berrar, impor, desrespeitar, lutar pelo individual, por mais que os “imbecilizadores profissionais” façam o mesmo, para dar o exemplo.

Há muito o que analisar e se preocupar, por isso não me abalo por tempestade em copo d´água que tem sido utilizada maquiavelicamente como matéria-prima de manipulação, ainda mais porque não perdi o respeito pelo semelhante, muito menos por mim. E, ainda Saramago, para terminar essa reflexão:

Se podes olhar, vê.

Se podes ver, repara.

 

Pelos labirintos de Veneza

Hoje faz um mês que, pela primeira vez, eu me perdi pelos caminhos de Veneza. Nem precisei me esforçar para isso acontecer, pois chegar ao hotel já se mostrou uma aventura ao ter de atravessar quatro pontes (duas grandes e duas pequenas) obrigatórias e mais duas pontes à toa… E, perder-se e ter de andar à toa por Veneza (mesmo arrastando mala), já é um prazer. Se a cidade conta com cerca de 400 pontes, então não cheguei nem perto de ficar realmente perdida! Fica, porém, a observação: dos caminhos que me embrenhei, foi a única vez que me perdi por lá.

E, que saudade enorme apertou meu coração ao constatar esse tempo que já passou… Parece sempre que, a cada lugar novo que conhecemos, a experiência é sempre incrível. E, é. Sempre. Mais incrível que a anterior tinha sido incrível? Não, necessariamente. Incrível como só esse novo lugar pode ser, sendo ele mesmo, naquele momento. Não há melhor clichê para repetir que não este: Veneza é incrível!

Resta saber o porquê, logo que tudo por lá é antigo e caindo aos pedaços (charmosamente caindo aos pedaços)… O barulho constante de água, a ausência de automóveis, motos e bicicletas, o constante exercício de andar, o descansar na carona de um Vaporetto, o subir e descer de escadas, as janelas com flores, os italianos e as italianas coloridos e formalmente arrumados, a música no ar (mesmo nos momentos sem música)…

Ler Otelo antes de ir para Veneza foi essencial para eu pensar em sua angústia interior, seu labirinto psicológico e como ele ficou perdido naquela terra, naquelas pontes, naquelas águas, naquela mulher veneziana… Por mais que o desfecho dessa trágica história tenha ocorrido em Chipre, foi em Veneza, a Serenisima, que ele deixou perdido quem ele era… Uma tragédia do genial William Shakespeare, também transformada na intensa ópera de Giuseppe Verdi, traduz todo o impasse de uma sociedade já tão separatista. Refleti muito na leitura, quando andava por lá…

A alma de Veneza é musical, por isso andar por ela, ouvindo-a é um momento de meditação. Minha ignorância musical não me havia permitido saber que Vivaldi era de lá, mas descobri quase ao mesmo tempo em que vi a cidade pela primeira vez. Justo Vivaldi que fez meu coração bater mais forte, em uma corrida desenfreada pelo parque do Ibirapuera, para não perder o concerto a céu aberto que começava com “La Primavera”, o concerto nº 1 das Quatro estações… Isso aconteceu na virada do século XX para o século XXI e me fez fã de concertos (ainda que a ignorância ainda teime em me acompanhar) de música clássica.

Foi uma grande emoção poder ouvir Vivaldi em Veneza, numa terça-feira à noite, como se fosse uma pessoa com uma vida normal: ir a um concerto durante a semana, andar pelas ruas, usar o transporte fluvial público, não ter pressa e perceber que ninguém lá estava com pressa também… Essa experiência foi intensa, emocionante e fenomenal, certamente meus sentimentos pela cidade não seriam os mesmos caso isso não tivesse ocorrido. Se “A primavera” me fez tremer internamente na virada do século, agora é “O inverno” que reverbera profundamente em mim.

Essa alma musical da cidade é algo arrebatador, assim como a charmosa decrepitude (não, lá não é um cortiço, estou exagerando!) e as incríveis esculturas espalhadas pela cidade. Porém, falar das esculturas ficará para um outro dia. De verdade, espero voltar muitas vezes para lá, espero esperar as cidades do Veneto, espero descobrir o fio hereditário que saiu de algum ponto daquela região, com o sobrenome Cherubini. Ciao!

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Escultura “SUPPORT” de Lorenzo Quinn

Sobre ursinhos, muralhas e poemas…

Sim, a vida anda dura e eu pensei várias vezes em roubar um ursinho (relembre o caso aqui!), assim poderia terminar de escrever o “365 dias de gratidão” e iniciar muitos outros escritos sobre viagens e mundo handmade que pululam em minha mente.

A grande questão é que 2017 tem insistido em ser uma meme “expectativa vs realidade”… 😛

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No entanto, há alguns momentos em que a vida não é uma meme. Quando? No meu aniversário, por exemplo, quando eu ganhei um poema. Eu sempre soube que deveria ler mais poesia. Obrigada, meu amigo!

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O melhor poema que li não me conhece, não me desvenda.

Apenas enreda-se em mim, comovendo-me, distraindo-me com jeitos de ser eu.

Pinta palavras que não são, que não podem ser. Gargareja sons até se esquecer

completamente de si.

Respira pelos silêncios. Encanta em ondas, serei por tudo. Venta até chacoalhar as

areias como um guizo.

Sempre ronrona seu destino muito perto do meu – eu que não me dou com gatos!

Brinca de me fazer infante, ilude com luz a minha sombra de velho escuro.

Derruba pelo ar, aos bocados, cheiros de amor de alguma mulher com a promessa

rosada de espinhos.

Segura a minha mão e me perdoa fácil como o padre e os decorados padre-nossos de

alguma confissão.

Faz minha mãe que já morreu chamar a todos para a mesa, pedindo vinho e rindo por pedir vinho.

O melhor poema que li não me liberta, é libertação.

Marcelo Donatti

Literatura, sua bandida!

Apaixonar-se por literatura é um caminho sem volta. Mesmo. Uma vez ouvi o seguinte “a faculdade de Letras é uma fábrica de angústias”. Sim, de fato é. E não por conto do tenebroso futuro pedagógico que aguarda a quase todos ao final do curso, mas porque pensar, refletir, analisar e conhecer são atividades que despertam aquilo que há de mais profundo em nossas entranhas da alma. Também sim, a ignorância é uma bênção! E, como ser um leitor sagaz não é o suficiente para alguns, há quem se aventure a escrever também. E a escrever brilhantemente. Se ser um leitor cria uma fábrica de angústias, imagino que ser escritor transforme tudo isso em uma usina. Talvez uma usina nuclear.

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Dedicatória do querido Alexandre, quando me deu o livro

 E, como a vergonha alheia para citar detalhes do ocorrido no último dia 17 é gigantesca, segue um trecho escrito pela jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho sobre a entrega do prêmio Camões a Raduan Nassar.

7. Claro que o ministro sumirá da história e a obra do premiado fica, enquanto houver alguma forma de livro no planeta. Para os livros de Raduan Nassar é indiferente o que passou na sexta. Mas a nós, contemporâneos, importa, sim, que um membro do poder político abuse do cargo, confundindo, distorcendo e agredindo um criador como Raduan, protagonista único da cerimónia, que lhe devia merecer, no mínimo, silêncio. Não cabe ao ministro aprovar ou reprovar o discurso do premiado, não lhe cabe responder. Tal como não é preciso alguém estar de acordo com Raduan politicamente para entender como foi absurdo o que se passou. O prémio não é deste governo, é patrocinado por dois Estados, e atribuído por um júri. A sua aceitação nunca deverá implicar um discurso bem-agradecido. Um ministro da Cultura que veja os criadores como estando ao serviço não entendeu nada. Idem para quem sugere que se pode tirar a política da cultura, e vice-versa. De resto, o que o actual governo brasileiro está a fazer na Cultura é um desmonte do muito que veio sendo construído. Se há áreas em que os anos de Lula deram frutos fortes, a Cultura é certamente uma delas.” (aqui o texto dela; aqui o ocorrido na Folha S. Paulo, até eles!; aqui o discurso dele).

Sim, vivemos tempos sombrios Raduan, porém prefiro acreditar no que o Alexandre disse para mim e, agora, para você também: “Que as colheitas todas, embora tardias, jamais impeçam os sempre ansiosos momentos de plantio”. Obrigada pela sua obra, pela sua arte. Vida longa à literatura, essa bandida que nos liberta para nos jogar no turbilhão de uma usina! ;*

363/365 Toca do leão

Sim, ainda o cabelo. Sorry. Quando eu pensava que, ao acordar, o “ninho de rato” não

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Vini

poderia piorar, enganei-me. Hoje foi dureza, tive que aguentar a crise de choro do susto que o Vini tomou quando me viu. Fiz o esquema de borrifar a misturinha, mas a situação continuou crítica hoje. “Difícil olhar pra essa sua cara aí e achar que está bom”, meio que isso o feedback recebido. Hoje eu desacreditei um pouco de que haverá uma maneira do cabelo ficar civilizado e apresentável, nem arrisco dizer “bonito”. Em dias assim, o agradecimento é gigante só pelo fato de não ter tido que sair de casa.