Dia Nacional do Livro – 29 de outubro

Hoje, comemora-se a chegada dos livros portugueses para compor a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Aliás, conhecê-la é um item que ainda não eliminei da minha lista e espero poder resolver essa pendência logo.

 

Quando me disseram que Vidas Secas era um livro horrível e chato, eu duvidei e fui lê-lo. Isso aconteceu no meu Ensino Médio, quando a escola para a qual eu me mudei tinha biblioteca. Lembro-me do quão abilolada fiquei ao conhecer esse espaço e não sabia para qual lado me virar ou como escolher um livro, apesar do coração batendo forte e da emoção de estar lá.

Eu vinha de uma escola pública que não tinha biblioteca (até hoje não tem) nem aula nem matéria, não havia respeito ou bem-estar, quase uma não-escola. Ainda hoje é um local sombrio e caindo aos pedaços. Afinal, criada na gestão PDS, abandonada pela gestão PMDB e enterrada na gestão PSDB, não haveria como estar em uma situação diferente. E pra não dizer que não falei das flores, posso dizer que minha permanência nessa escola não foi de toda perdida: um dia consegui ler um livro que estava jogado numa sala empoeirada, o Peter Pan na narrativa moldura de Monteiro Lobato e tive contato com o Movimento Punk (eu conto um pouco nisso na minha memória de leitura, aqui). Era com essa imensa bagagem que eu chegava à escola que tinha biblioteca.

Os não recomendados foram “Vidas Secas” e “Dom Casmurro”, ambos intragáveis, de acordo com a opinião dos demais estudantes. Mesmo sem bagagem de leitura, não acreditei no que me diziam e resolvi saber por mim mesma. Mergulhei em “Vidas Secas” e quase acabei com a aridez daquela terra com as minhas lágrimas.

Lágrimas de indignação, diga-se de passagem. Pela história? Sim. Mas também por todos aqueles que disseram o que disseram sobre o livro. Como assim, as pessoas tinham lido e não tinham tido, ao menos, empatia com aquela situação extrema da ausência de voz do ser humano? Chorei por não conseguir entender a aridez daquelas “vidas” e mentes que não tiveram o mínimo discernimento para a narrativa.

Mal sabia eu que esse tipo de situação seria muito mais corriqueira do que eu gostaria que fosse (na verdade, cada vez mais comum!). Talvez tenha sido nesse momento que eu tenha passado da fase de “viajar para outros lugares” para a fase “me colocar no lugar do outro”. Talvez também, nesse momento, o velho Graça tenha me salvado da seca que assola cérebros e corações. Talvez por isso eu esteja pensando tanto nesse livro nos últimos dias… Ontem, ao sair com ele, segurava-o com força, pois o medo de não poder mais discutir sobre um livro desse em sala de aula, um respeitável Sr. Livro de 80 anos, pareceu-me um grande perigo.

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Depois que a leitura do livro “Meninos sem pátria” do Luiz Puntel ter sido “suspensa” no colégio (aqui, aqui e, boa notícia, aqui), de amiga próxima em colégio humanista de elite ter tido a escolha de um conto não ter sido aprovada pela coordenação (acusado de “racismo inverso”, sendo que a cor da personagem nem foi descrita), dá pra imaginar que ler “Vidas Secas” e analisar em aula seria motivo mais que suficiente para ser filmada e denunciada como “doutrinação comunista” no celular divulgado ontem à noite, como forma de garantir uma escola sem partido…

O jeito será encontrar, cada vez mais, conhecimento (que é força) e sabedoria (que é  segurança) nas páginas dos livros. E, se eu não acreditar que livro possa combater a barbárie, é melhor mudar de profissão e ser uma hater profissional (olha que paga mais que as escolas públicas estaduais, sem precisar estudar, só vomitar asneiras!) ou uma exímia manipuladora de Photoshop para fazer montagens incríveis ou memes impagáveis. Enquanto isso não acontece, vou ler para não acreditar em tudo que me dizem no mundo virtual.

Parabéns ao Dia Nacional do Livro, espero que ele possa ser a única arma a ser usada daqui em diante!

 

Um sonho azul

Casinha de Sapê com flores

O dia em que eu escrever minha “Memória Musical”, certamente a primeira música que figurará nesse resgate mnemônico será “Casinha de Sapê” do Tim Maia. Eu era pequena, pouco depois da morte da minha avó. Os sábados de limpeza no meu avô eram permeados pelo sonzinho ligado… Lembro-me perfeitamente dessa música e de mim encantada com a melodia, com a letra e com a esperançosa alegria que me tomava, nem sem saber direito o porquê. Meu tio Beto era fã do Tim Maia e essa voz do Tim Maia é algo impregnado na minha alma, talvez como essa profunda tristeza que ele sempre conseguiu expressar em som… 

Outros músicas também comporão esse cenário da “Alta Infância”: “California Dreamin´” do The Mamas & The Papas e “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana (adorei essa versão de homenagem da Vivo)… Incríveis, aconchegantes e que fazem sonhar…

É logico que eu, com toda a minha dificuldade em entender o que é cantado (até em português!), só poderia cometer equívocos ao cantar as músicas! Risos. O primeiro desses enganos, certamente foi com uma outra música do Tim Maia, “Azul da cor do mar”. Uma tragédia essas minhas confusões sonoras! Somente euzinha para confundir ‘VIR A ACHAR” com “VIAJAR”! Pois é, foi o que aconteceu com essa música… 🙂

Eu sempre sonhei com viagens. Outras culturas, línguas, costumes, paisagens e, principalmente, o fator distância, sempre foram minha válvula de escape. Apaixonei-me pelo planeta Terra, todo azul, naquele famoso planisfério escolar. Não me cansava e não me canso em ver países no papel… E, agora, também na vida real. E, como esse post tem o objetivo de inaugurar uma série sobre viagens, então resolvi colocar essa música que, mesmo não dizendo “viajar” e sim “vir a achar”, serve perfeitamente para os meus propósitos de compor meu sonho azul, azul da cor do mar nas viagens. É o que me resta, mesmo.

“E na vida a gente / Tem que entender / Que um nasce pra sofrer / Enquanto o outro ri.. / Mas quem sofre / Sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver… / Ver na vida algum motivo / Pra sonhar /  Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar” 

De verdade, dá ou não dá pra encaixar o “viajar” aí? 🙂

Azul, da cor do lago…
Lago Llanquihue em Puerto Varas – Chile (2012)

Livros e sonhos alados

Há épocas em que os sonhos ganham asas. É como se elas tivessem (re)nascido, depois de terem sido podadas ou terem perdido o viço. Asas que não se importam com o que os outros dizem (outro dia ouvi: “vou morrer sem entender isso”… pena… :(), com o que esperam delas, com o que querem obrigá-las a fazer ou ser. Essas são asas livres e esse é o melhor estado que alguém pode estar. É muito bom estudar, é vital ler, é primordial respirar, é uma nova experiência compor quadros visuais por meio de lentes, é maravilhoso criar, é um exercício usar as mãos para fazer suas coisas, é um alívio dizer “não”, é prazeroso ajudar, é engrandecedor trocar ideias e experiências, é certo afastar-se de uns e outros, é acolhedor ter boas lembranças, é esperançoso seguir adiante e planejar o futuro… E tudo isso só é possível, quando há asas que ajudam a sentir tudo mais leve. E feliz.

Eu voltei, depois de um período de intensa reflexão interna.

E nada melhor do que um vídeo, enviado pela querida Lenice, para mostrar toda a beleza, a sensibilidade e o alívio desse momento de alfabetização emocional.

Leve, produtivo e feliz

Depois de passar quase 15 dias descansando o corpo, a alma, os olhos e o coração, percebo que começou 2012 e que está tudo mais fácil para pensar nesse ano que se inicia. O Ano Novo é agora para mim, pois combina com a alma renovada. Foi então que me veio essa tríade imprescindível para a minha vida: leveza, produtividade e felicidade.

Quero ver e viver a vida de maneira mais leve, sem querer ter as certezas e fazer justiça com tudo.

Quero perceber um ano produtivo para mim: em conhecimento, em amizades, em conquistas pessoais.

Quero sentir-me feliz mais vezes, simplesmente por respirar.

Para isso, farei com que o trabalho seja só trabalho (afinal, ele é só isso, não?) e termine junto com o expediente. Sei que para professor isso é quase impossível, mas me empenharei nisso este ano. Principalmente, no que se refere a trazer os problemas do trabalho e continuar me aborrecendo por horas a fio pela incompetência alheia.

Quero ficar mais ao ar livre, pois é disso que se nutre a minha alma: verde, ar e vida. Caminhada, patins e, oxalá, bike.

Vou adotar a política do MENOS É MAIS para tudo. Falar menos, opinar menos, só responder aquilo que me for perguntado (chega da mania besta de tentar consertar o mundo) e, principalmente, emprestar menos meus ouvidos para as lamentações alheias. Isso mesmo, nada de falação na minha orelha. Na verdade, estou cansada de só ouvir por infindáveis horas as lamúrias alheias. No último ano, prestei-me a esse papel diversas vezes e, em duas delas, fiquei muito mal por semanas por remoer os problemas de quem não tem a mínima consideração por mim. Afinal, só servi de depositária de palavras, logo não era um diálogo o que as pessoas queriam.

Dizer NÃO: bem redondo e mais vezes. Sem culpa ou remorso.

Dedicar-me a meus projetos autorais: patchwork, fotografia, diplomacia e/ou doutorado, línguas, literatura, América Latina…

Agradecer a cada dia pelo sol, pela chuva, pela saúde e pela vida.

Lembrar-me sempre e tanto de olhar com descoberta e surpreender-me a cada dia como se “nascera deveras”.  

Resumindo: um ano cheio de boas intenções. Okay, sei que o inferno está cheio delas, mas as minhas serão acompanhadas de ações.

Dans L’année prochaine

Autor: Sérgio Antunes

Tradução: Érika S.

 

Dans l’année prochaine

je ferai un check-up,

réformerai mes costumes,

je changerai mes meubles

voyagerai en l’hiver,

 comme convient.

 

Dans l’année prochaine

je traiterai de mes dents,

je nettoyerai le cave

je chercherai un emploi nouveau

et changerai ma voiture

et laisserai la cigarrette

comme convient.

 

Et je me convertirai

dans l’année prochaine,

enregistrerai l’écriture

J’irai payer une voeu,

et marcherai plus vite

et ferai une régime,

dans ce l’année prochaine

comme convient.

 

Dans l’année prochaine

je payerai mes dettes,

rayerai mês doutes

voyagerai pour France

étudierai Espéranto

et écrirai pour vous

comme convient.

 

Si ne donner pas, cependant,

dans l’année prochaine

je laisserai de recouvrement

du que j’ai fait ou je n’ai pas fait

dans l’année prochaine

je veux, comme convient,

être, seulement, heureux.

Abster-se do prazer e da dor – parte final

Para encerrar essa série de reflexões sobre o prazer e a dor, nada melhor que relembrar um filme muito querido: Cidade dos Anjos (EUA/1998), dirigido por Brad Silberling, com a participação do Nicolas Cage e Meg Ryan.

Foi esse filme que me chamou a atenção, pela primeira vez, sobre a questão das sensações. Lembro-me que o anjo lia Ernest Hemingway O velho e o mar para entender as sensações descritas pelo autor, ele também apreciava como se podia saborear uma fruta, o toque das mãos e depois até a sensação da água batendo no corpo, lógico que também as sensações do amor… Todas sensações de prazer, as quais ele não tinha acesso. Mesmo não tendo como desvencilhar a sensação de dor, fiquei com a impressão de que tudo que ele fez valeu a pena. Talvez também precise rever o filme.

Sei que esse filme é uma recriação de Asas do Desejo, filme alemão de 1988. (veja o trailer aqui!)

Bom, viver é sempre a melhor opção!

Abster-se do prazer e da dor – parte II

Acho muito engraçada uma cena do filme Troia (essa última versão, com o Brad Pitt), quando logo no início Páris procura Helena no quarto dela e ela quer resistir a ele e diz que eles não deveriam fazer aquilo, pois era uma erro. Bom, ele pergunta da noite anterior, ela responde que também havia sido um erro… e na outra noite também… Por fim, ela diz que havia cometido muitos erros naquela última semana… 🙂 Bom, por que eu estou contando isso, porque muitas vezes agimos como a Helena, cometendo erros sucessivos… Mas, serão mesmo erros ou simplesmente entrega para o prazer?

Os comentários da Patrícia e da Tarciana na parte I deste tema foram muito bons (confira aqui), assim como os comentários da Lenice, que chegaram só por e-mail. Curioso como elas foram unânimes em abominar mais “estar em cima do muro”, do que enfrentar as consequências, que nem sempre são desastrosas. Curioso também o fato de serem garotas diferentes em tudo e unânimes na coragem. Pois é, coragem é o que não falta para algumas pessoas que tenho conhecido ultimamente. Vou aproveitar para citar duas corajosas que só conheço virtualmente: a Eve, do Blog Rindo de Mim Comigo e a Dona Flor.

“Será porque a felicidade só vale quando permanece para sempre?” Eu já comentei um pouquinho sobre essa frase do Schlink aqui. Porém, voltar a ela é compreender que estar sempre “em cima do muro” não vale a pena. Já deixei de viver grandes histórias por causa disso (Má, essa é pra você!) e, tenho completa certeza, de que as viver teria sido muito melhor, muito melhor mesmo. Eu teria amadurecido mais rápido e teria tido mais momentos de felicidade.

Uma vez li Travessuras da menina , do peruano Mario Vargas Llosa e achei incrível o fato dos protagonistas terem passado uma vida inteira de desencontros. Na verdade, eles se encontraram a vida inteira, mas não “casaram e viveram felizes para sempre”. Em comparação ao que vejo na vida real, creio que eles tiveram intensos momentos muito mais produtivos que os dos contos de fadas. Não permaneceram juntos, é verdade, mas não deixaram de viver, de ter prazer um com o outro, mesmo que tenham sido poucos (será? muita gente não passa nem perto disso!) os momentos. 

Por último, quero lembrar do memorável livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da minha confidente predileta, Clarice Lispector. Aliás, esse livro ficará inteiro para um outro post. O que quero ressaltar dele hoje é o fato de que sentir prazer é um aprendizado. Um exercício de vida e de percepção, como Alberto Caeiro (leia um maravilhoso aqui!) mostra em seus poemas e como a Lóri se prepara para amar… O exercício de ambos é como um enxergar o mundo… e senti-lo. É o que propõe a meditação e a yoga ao enfatizar o encontro consigo mesmo.

Caeiro, Lóri, meditação e yoga propõem simplesmente que sintamos a vida na dimensão que ela é… Não como gostaríamos que fosse. Creio que essa herança da idealização que o Romantismo nos deixou, privou-nos de amadurecer emocionalmente, pregando a grandiosidade de tudo, quando na verdade, a percepção da realidade é aquilo que nos é tangível. 

Viver em cima do muro pode ser perigoso, ainda mais se for um muro como o de Berlin (grafia alemã), que foi reduzido a escombros, assim como quem se apoiava nele.   

Abster-se do prazer e da dor – parte I

Sempre Schlink, parece até que virou uma ideia fixa… Só ele mesmo para dizer várias coisas que eu precisava refletir, em um único livro. 

“Então desisti novamente de contar as coisas. Não é preciso contar, porque a verdade do que se conta está no modo como se é.”

Pensar sobre isso me fez perceber que aquele conceito de que as pessoas são complicadas (leia-se: eu sou complicada), na verdade, não tem fundamento. Não somos complicados, mas um resultado de diferentes experiências. Sim, o outro faz parte de nossas vidas por um tempo e deixa marcas “Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim?”, como diz o sábio Drummond em “Resíduos”.

Podemos, simplesmente, ignorar essa complexidade (e não complicação) nossa e dos outros, como diria um velho (des)conhecido: “sublimar” tudo. Podemos também ter o atrevimento e a presunção de desvendar essa complexidade e depois não saber o que fazer com ela (síndrome de Madre Tereza de Calcutá), logo que as pessoas não são peças de LEGO, para serem remontadas a nosso bel prazer. Podemos ainda optar por ver tudo da “janelinha” da vida, ou seja, abster-se do prazer de descobrir e sentir certas situações complexas, com a vantagem (?) de também não sofrer em decorrência delas.

Ter um visão contábil do prazer e da dor não ajuda em nada, eu sei. Porém, impossível não contabilizar o tempo de prazer e a eternidade de dor (isso mesmo, pois ela sempre advém!), de boa parte das situações de nossas vidas.

Pesquisando sobre esse tema, deparei-me com um princípio de São Tomás de Aquino que diz que a razão por si só, tem por princípio a sua interrupção, de vez em quando, por meio do prazer. Sendo assim, o prazer é o princípio para o alimento da razão, quando esta volta a atuar… Bom, quem sou eu para discutir sobre esse princípio, porém será que o desejo está na categoria desse prazer que interrompe e abastece a razão? Se estiver, então encontros casuais, momentos de “fazer bem” e viver o “agora” estão liberados, logo que proporcionam o retorno à razão? Ou são simplesmente justificativas vazias para dar vazão ao instinto e ao desejo, sem medir consequências? Esses momentos de interrupção então não consideram a complexidade dos seres envolvidos, é isso?

Também penso no desperdício de se abster do prazer e da dor, logo que existem tantas outras pessoas, com impedimentos biológicos que não conseguem sentir nada. No primeiro caso seria uma opção (fuga/resistência/máscara ou o nome que quiser dar… :)); no segundo, uma contingência que causa outro tipo de dor: a dor de não sentir dor, nem nada. Mesmo de longe, pude ver um pouco de um caso assim e dizer que não é nada fácil, é muito pouco.

Todos os manuais de autoajuda ou mensagens de otimismo da internet (principalmente nesse período de espírito de Natal e promessas para o novo ano) caem no seguinte lugar-comum: “Viva a vida intensamente! Ame, viva e seja feliz! Melhor amar e sofrer, a nunca ter amado verdadeiramente! Entregue-se, jogue-se no amor, etc”. Bom, nem preciso continuar, para que entendam do que eu estou falando.

Muitas perguntas e nenhuma resposta. Reflexo de um dilema que não deveria ter sido instaurado. O que é do dever frente ao querer/desejar? O querer mostra-se sempre muito independente, quando ele precisa ficar quietinho num canto, até se acalmar e sumir. Estranho isso, porque o dever deveria sempre ser o mais forte (ou não? :)).  

Qual a sua opinião sobre isso, caríssimo leitor? Abster-se do prazer e da dor é o caminho para ver a vida pela “janelinha” e não sofrer mais, e sempre, e tanto?

Do brega ao bom

Depois de um show do Sidney Magal (isso mesmo, não se assuste!) no jantar de confraternização do sábado, nada melhor do que ouvir boa música no domingo. E o melhor, boa música a um preço pra lá de decente! O show “Diálogos musicais: memória e verdade”, no Sesc Pinheiros, foi realmente fantástico. Quanto samba bom! Que saudade de uma bela gafieira (aliás, que eu nem sei mais!) e da sensação de dançar.

Uma noite ótima não poderia terminar sem poesia e dança. Pois é, daquelas poesias! Com direito a leitura em francês, com tradução simultânea e leituras que quebram barreiras. Surpreendi-me com as traduções de José Paulo Paes. De que tipo de poesia? Bem, daquelas. 🙂 O triângulo no forró também marcou o descompasso de pés.

Uma das músicas da noite:

 

Aulas de forró para treinar:

Der Vorleser, Erster Teil III-8 – Bernhard Schlink (wiederum und jederzeit!)

“Ich hatte ihren Geruch früher besonders geliebt. Sie roch immer frisch: frisch gewaschen oder nach frischer Wäsche oder nach frischem Schweiβ nicht, was für eines, und auch dessen Duft war mehr als alles andere frisch. Unter diesen frischen Gerüchen laf noch ein anderer, ein schwerer, dunkler, herber Geruch. Oft habe ich an ihr geschnüffelt wie ein neugieriges Tier, habe an Hals und Schultern angefangen, die frisch gewaschen rochen, habe zwischen den Brüsten den frischen Schweiβgeruch eingesogen, der sich in den Achselhöhlen mit dem anderen Geruch mischte, fand diesen schweren, dunklen Geruch um Taille und Bauch fast pur und zwischen den Beinen in einer fruchtigen Färbung, die mich erregte, habe auch ihre Beine und Füβe beschnuppert, die Schenkel, an denen sich der schere Geruch verlor, die kniekehlen, noch mal mit leichtem frischem Schweiβgeruch, und die Füβe, mit dem Geruch von Seife oder Leder oder Müdigkeit. Rücken un Arme hatten keinen besonderen Geruch, rochen nach nichts und rochen doch nach ihr, und in den Handflächen war der Duft des Tages und der Arbeit: die Druckerschwärze der Fahrscheine, das Metall der Zange, Zwiebel oder Fisch oder gebratenes Fett, Waschlauge oder Bügelhitze. Werden sie gewaschen, verraten Hände zunächst nichts von alledem. Aber die Seife hat die Gerüche nur überdeckt, und nach einer Weile sind sie wieder da, schwach, verschmolzen in einen einzigen Tages – und Arbeitsduft, in den Duft des Tages – und Arbeit sendes, des Abends, der Heimkehr und des Daheim seins.”

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Se eu sei alemão? Não, não sei. No entanto, sou apaixonada por esse livro e fiz questão de ficar olhando para as palavrinhas escritas em alemão na versão original, só para identificar os trechos dos quais gosto. Hoje, lendo trechos de “O cortiço” que faziam menção a esse mesmo tipo de sensação (só que em Schlink, de modo maravilhosamente poético na tradução), lembrei-me que a cópia que eu estava fazendo ficou pela metade. O que é viver algo assim? Gosto tanto porque nunca vivi nada igual e nem acredito que vá viver, sinceramente. Se não existe algo assim ou se eu não vivenciar algo assim, ainda bem que existe a literatura!