Leituras, Percepções

Clarice Lispector ou Antes que o mês acabe

Creio que eu esteja passando pelo período de Aquário, pois foco não tem sido o meu forte esses dias… A multiplicidade é muito mais interessante! Minhas leituras estão mudando, assim como muda meu estado de espírito. Semana passada eu havia começado “Desde que o samba é samba” do Paulo Lins. Não resisti ao fato do livro estar indo para as prateleiras da livraria naquele instante em que eu entrei na loja e, como adoro o autor e adorei a sinopse, comprei. Muito sexo e pouco samba depois, resolvi deixá-lo em suspenso, de castigo…

E, como o ânimo mudou, assim como mudou o teor sms do meu dia, parti, sem titubear, para “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” da Clarice Lispector. Bom, todo esse preâmbulo somente para comentar sobre duas passagens do início do livro. Eu já o li e sei o quanto mexe comigo. Eu já o recomecei duas ou três vezes e sempre paro logo depois da lágrima. Essa primeira parte está toda grifada e comentada e a cada vez que releio sinto uma identificação ímpar. Só que dessa vez eu descobri algo a mais.

“Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição). (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava). E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser).”

Eis a síntese de tudo. Estranho isso, não? Ler algo que contempla o que sentimos e o que somos. É uma sensação estranha e conhecida, é uma descoberta, como aquela do Caeiro “Sei ter o pasmo essencial / Que tem uma criança se, ao nascer, / Reparasse que nascera deveras… / Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo…”. E foi bem isso que (re)aconteceu quando li esse trecho. Mas, a querida Clarice não parou por aí, e ela que me conhece como a palma da sua mão, continuou, sem piedade.

“Era uma velha de quatro milênios. Não – não fazia vermelho. […] A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos mas duros – e sobretudo a boca voraz para nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada pelo planeta Marte.”

Talvez eu nunca tivesse reparado nesse trecho (difícil, mas possível). Talvez eu não estivesse com “olhos de descoberta” para ler e entender esse trecho. Visceral, no mínimo. E, retomando aquela conversa sobre epifania, foi nesse momento que descobri o porquê das releituras sempre pararem logo após a lágrima: é que eu ainda não senti a falta de sede. Se essa percepção da sede não existe, tampouco existirá a disposição para a aprendizagem da Lóri.

Ainda não é hora de (re)continuar o livro, mas pode ser que ela esteja chegando.

Leituras, Percepções

Amar é mesmo fácil?

Por diversas vezes já citei frases ou indiquei textos do Ivan Martins. Ele é diretor-executivo da Revista Época e tem uma coluna semanal que funciona como a de Carry Bradshaw em Sex and the city, só que às avessas. Ele pode até não gostar da associação, mas os questionamentos emocionais que ele desenvolve seguem a mesma linha de discussão da personagem-jornalista da série (Clique aqui para conhecer todos os textos dele). Hoje vou reproduzir integralmente um de seus textos que li e adorei, não sei se devido à leitura que fiz ontem do Alain de Botton (filósofo francês em artigo da BBC “Ideais de casamento burguês são metas inalcançáveis”) ou se devido a certas situações que parecem nunca sair de nossas vidas, seja como o que deseja e sofre ou seja como o desejado. 

O amor bom é facinho

(Ivan Martins)

Por que as pessoas valorizam o esforço e a sedução?

Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho – esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?

Eu suspeito que não.

Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói.

Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade de lutadores, não somos? Temos de nos esforçar para obter recompensas. As coisas que realmente valem a pena são obtidas à duras penas. E por aí vai. De tanto ouvir essa conversa – na escola, no esporte, no escritório – levamos seus pressupostos para a vida afetiva. Acabamos acreditando que também no terreno do afeto deveríamos ser capazes de lutar, sofrer e triunfar. Precisamos de conquistas épicas para contar no jantar de domingo. Se for fácil demais, não vale. Amor assim não tem graça, diz um amigo meu. Será mesmo?

Minha experiência sugere o contrário.

Desde a adolescência, e no transcorrer da vida adulta, todas as mulheres importantes me caíram do céu. A moça que vomitou no meu pé na festa do centro acadêmico e me levou para dormir na sala da casa dela. Casamos. A garota de olhos tristes que eu conheci na porta do cinema e meia hora depois tomava o meu sorvete. Quase casamos? A mulher cujo nome eu perguntei na lanchonete do trabalho e 24 horas depois me chamou para uma festa. A menina do interior que resolveu dançar comigo num impulso. Nenhuma delas foi seduzida, conquistada ou convencida a gostar de mim. Elas tomaram a iniciativa – ou retribuíram sem hesitar a atenção que eu dei a elas.

Toda vez que eu insisti com quem não estava interessada deu errado. Toda vez que tentei escalar o muro da indiferença foi inútil. Ou descobri que do outro lado não havia nada. Na minha experiência, amor é um território em que coragem e a iniciativa são premiadas, mas empenho, persistência e determinação nunca trouxeram resultado.

Relato essa experiência para discutir uma questão que me parece da maior gravidade: o quanto deveríamos insistir em obter a atenção de uma pessoa que não parece retribuir os nossos sentimos?

Quem está emocionalmente disponível lida com esse tipo de dilema o tempo todo. Você conhece a figura, acha bacana, liga uns dias depois e ela não atende e nem liga de volta. O que fazer? Você sai com a pessoa, acha ela o máximo, tenta um segundo encontro e ela reluta em marcar a data. Como proceder a partir daí? Você começou uma relação, está se apaixonando, mas a outra parte, um belo dia, deixa de retornar seus telefonemas. O que se faz? Você está apaixonado ou apaixonada, levou um pé na bunda e mal consegue respirar. É o caso de tentar reconquistar ou seria melhor proteger-se e ajudar o sentimento a morrer?

Todas essas situações conduzem à mesma escolha: insistir ou desistir?

Quem acha que o amor é um campo de batalha geralmente opta pela insistência. Quem acha que ele é uma ocorrência espontânea tende a escolher a desistência (embora isso pareça feio). Na prática, como não temos 100% de certeza sobre as coisas, e como não nos controlamos 100%, oscilamos entre uma e outra posição, ao sabor das circunstâncias e do tamanho do envolvimento. Mas a maioria de nós, mesmo de forma inconsciente, traça um limite para o quanto se empenhar (ou rastejar) num caso desses. Quem não tem limites sofre além da conta – e frequentemente faz papel de bobo, com resultados pífios.

Uma das minhas teorias favoritas é que mesmo que a pessoa ceda a um assédio longo e custoso a relação estará envenenada. Pela simples razão de que ninguém é esnobado por muito tempo ou de forma muito ostensiva sem desenvolver ressentimentos. E ressentimentos não se dissipam. Eles ficam e cobram um preço. Cedo ou tarde a conta chega. E o tipo de personalidade que insiste demais numa conquista pode estar movida por motivos errados: o interesse é pela pessoa ou pela dificuldade? É um caso de amor ou de amor próprio?

Ser amado de graça, por outro lado, não tem preço. É a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (no trabalho, na balada, nas férias, no churrasco, na casa do amigo) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações? Neste momento eu não consigo me lembrar de nada.

Leituras, Saudade

Memória de Leitura: Tem um P, tem um R, tem um I…

Eu gostaria muito de compartilhar a minha memória de leitura, pois escrever esse percurso de contato com a leitura e a escrita foi muito prazeroso para mim. Penso em fazer outras memórias também, talvez de músicas e de filmes, em um outro momento talvez.       

As duas primeiras palavras que aprendi a ler foram “primavera” e “Sesc”. Lógico que elas têm um significado importante na minha história de vida e relaciona-se ao fato da minha mãe possuir baixa visão e depender de mim desde pequena para ajudá-la a ver se vinha vindo carro na hora de atravessar a rua ou a pegar ônibus. Estes dois nomes eram os dos ônibus que vinham para minha casa. Aliás, fui alfabetizada por ela, que decorava tudo o que tinha na cartilha e fazia-me ler e reler, enquanto ela lavava roupa.

        Lembro-me de quando ia para a casa da minha avó e passava por um bazar que tinha uns livrinhos na vitrine, um deles com as letras do alfabeto e, aos cinco anos, a minha vontade era a de ter um daqueles. Acabei ganhando a minha cartilha “Caminho Suave” e aí se iniciou o meu processo de alfabetização. Eu achava muito engraçada a lição do “C” e não me esqueço do “A vovó viu a uva” (acho que era assim…).

        Nessa época eu ainda não sabia ler correntemente, conhecia as letras tão somente e soletrava-as para a minha mãe, quando estávamos no ponto (confesso que às vezes quase perdíamos o ônibus!). Nenhum outro item da minha alfabetização me chamou atenção, só sei que quando estava na primeira série eu tinha uma leitura e escrita correntes e que a professora me colocava para sentar com as crianças mais atrasadas (diga-se de passagem que por causa disso sofri uma perseguição durante todo o ensino fundamental, mas isso já é uma outra história).

        Lembro-me também que meu boletim só possuía notas “A” e que enquanto as outras crianças brincavam na rua, eu as olhava pela janela da sala, pois estava sentada à mesa com os meus intermináveis cadernos de caligrafia e os livrinhos de cópia (“O patinho feio” e “A galinha ruiva”), únicos durante anos. Eu olhava as crianças brincando na rua e ficava torcendo para chegar o sábado, para eu poder brincar também. Além de não poder ir à rua, eu também não podia assistir TV. Da TV lembro-me somente de assistir ao seriado do Batman, ainda com aquele telefone de disco vermelho.

        Não me lembro de haver lido nenhum livro na escola e meu repertório de leitura literária, durante o ensino fundamental restringiu-se a dois livros e a gibis. O primeiro deles, um verdadeiro instrumento de catarse (nessa época eu não sabia disso), fez-me relê-lo por diversas vezes. Era um livro que tinha na minha casa, do tempo que minha mãe leu na escola e se chamava “O meu pé de laranja lima” de José Mauro de Vasconcellos.

Tenho-o ainda hoje, como lembrança da primeira leitura que me fez vivenciar os acontecimentos e de identificação de situações. Não me lembro quantos anos eu tinha quando o li… Talvez uns 11 ou 12 anos. Enquanto eu me emocionava com o livro, já não era mais tão boa aluna, era mediana, medíocre até. Não me lembro de nenhum professor significativo nessa época, nenhum conteúdo interessante… Só me lembro das angústias pelas quais passava e que me sentia um fantasma na escola. Nenhum professor sabia o meu nome.

O segundo livro, e esse lido por puro acaso, foi “Peter Pan” (e só na faculdade é que fui saber que era a versão do Monteiro Lobato). Aconteceu que um dia enquanto ajudava uma professora a carregar alguma coisa (não me lembro o quê), conheci um espaço novo na escola: um depósito de livros que deveria ser uma biblioteca. Era uma sala escura, repleta de caixas, cheia de poeira e de prateleiras. Vi um livro, de um personagem que eu já tinha ouvido falar: Peter Pan. Pedi emprestado para a professora e ela aquiesceu. Foi então que comecei um outro momento de catarse com a “Terra do Nunca”.

 Por repudiar aquela mesmice da escola, assim como os moldes prontos e as tendências de “vaquinha de presépio”, travei contato com o movimento Punk. Identifiquei-me prontamente com o repúdio ao domínio norteamericano (afinal, eu detestava a metida da professora de inglês) e aos ideais do anarquismo (ah, repúdio esse que me faz estudar inglês somente agora! :(). Como eu tinha uma “liberdade controlada”, confesso que não participei tão ativamente assim do movimento, porém o suficiente para escrever textos de ideologia punk (no sentido metafórico, agora que os leio, realmente clichês e horrorosos!).

Incursionei também no estudo de uma segunda língua: o castelhano, vulgo espanhol. A partir desse momento foi que “tomei gosto” pelo estudo da língua e percebi como a linguagem e a cultura são realmente fascinantes.

Gostar mesmo da escola, só aconteceu no Ensino Médio. Enfim, longe das perseguições, longe de casa, longe do bairro em que morava e considerada a melhor escola da Zona Sul de São Paulo, tive meus melhores momentos e os melhores amigos na lendária e inesquecível E. E. Profº Alberto Conte. Foi lá que vi pela primeira vez uma sala (e aula também!) de Artes, Laboratório de Química e Biologia, mini-anfiteatro de vídeo e anfiteatro para 300 pessoas. Foi lá que vi um ginásio coberto e a vida por detrás do conhecimento. Quando fiz cursinho pré-vestibular, percebi que o ensino era quase tão deficiente quanto da escola anterior, no entanto já era um progresso para mim.

Eu tinha amigos, jogava basquete, tênis de mesa, ia até para algumas festas, tinha aulas de Psicologia e o melhor, de Filosofia. O professor Carlos de Filosofia era militante, falava Esperanto e sabia o meu nome.

Foi nessa época também que entrei para a editoração do jornal da escola, o “In Focus”. No jornalzinho eu só organizava as matérias, datilografava (:)!!:)) os textos e incluía as ilustrações que um dos membros desenhistas fazia. Infelizmente, participei desse grupo somente nos últimos seis meses de aula do 3º ano. Depois que saímos o jornal também acabou…

Lembro-me bem das leituras que efetuei nessa escola: “Inocência” (que considerei extremamente indigesta), “A moreninha” (um pouco melhor), “Iracema”, “Tristão e Isolda” e “Capitães de Areia”. As três primeiras a pedido da escola, os dois últimos por conta própria, sendo que o Jorge Amado foi quem realmente me conquistou, pois tratar de uma problemática social realmente me atraía, seja por causa do movimento punk, seja por causa dos estudos da cultura hispano-americana.

 Foram anos realmente incríveis do Ensino Médio e com os estudos terminados surgiram dois acontecimentos importantes na minha vida: travei conhecimento com a leitura de clássicos, como “Dom Casmurro” (que eu amei de paixão) e “Vidas Secas” (que me levou às lágrimas e à indignação), pra começar; e também com a impossibilidade financeira de fazer um curso superior.

Paradoxalmente às leituras clássicas, travei contato também com outros tipos de literatura: de massa (Paulo Coelho e Sidney Sheldon) e barata (Bárbara Cartland, uma espécie de Júlia com histórias de época). Confesso que essas leituras foram de extrema importância para mim, pois foi então que eu percebi como gostava de ler. Mas, podem rir à vontade, eu deixo…

Bem, antes de terminar o Ensino Médio eu já trabalhava, mas como diz a música “recebia aquela mixaria!”. Comecei a buscar então alternativas para resolver esse problema e foi então que conheci a USP. Pensei comigo: “É a única oportunidade de fazer faculdade” e “Mas, o quê? Se meus instintos vão desde Direito à Turismo?”. Com isso tentei pensar no que eu mais gostava e cheguei à conclusão: LER e ESPANHOL.

Consegui uma bolsa e fiz um ano de cursinho (aliás, só pensando no conteúdo, eu trocaria todos os meus anos de escola pelo ano que tive no cursinho) e ingressei na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O nome pomposo é simplesmente para expressar o quão contente eu fiquei com essa conquista, ainda mais para mim: filha de pais separados e que ninguém dava R$1,00. De verdade, isso.

Em um parágrafo concluirei esse texto, pois não tenho como demonstrar a importância desse curso na minha vida. Fábrica de angústias? Interação social? Cultura? Intertextualidade? Interdiscursividade? Relações de mundo? Compreensão da sociedade brasileira? Contato com a magia, o encantamento, o fantástico, o maravilhoso e o metafórico da literatura? Visão do estudo da língua como um processo de interação social e, muitas vezes, de imposição de poder? Percepção da incompletude, da fragmentação, das máscaras? … Sim, para todas as opções. No entanto, como esse ainda é um processo “em assimilação” e em “construção eterna”, ainda não me sinto à vontade para continuar discorrendo…

O que mais posso dizer para concluir esse memorial? Perdoem-me os clichês, mas não tenho como não dizer como a  leitura, o aprendizado, o conhecimento e a cultura são peças indissociáveis da minha formação como indivíduo e integrantes da minha vida.

Qual a sua memória mais preciosa com relação a esse assunto? Compartilhe também! 🙂

Leituras

Razão, sentimento e amadurecimento emocional

Voltei só agora  meu primeiro encontro com o Clube de Jane Austen. Eu voltei para o século XXI (:() e os demais membros continuaram no século XIX, esperando a próxima visita chegar.

O chalé da família Dashwood é realmente um encanto e as colinas verdes que são avistadas do quarto emq ue fiquei no 2º andar enchem os olhos de paz e a mente de frescor e esperança, o que tornou a estadia por lá muito saudável. O mais incrível dessas “férias” de uma vida ordinária foi que em nenhum momento esqueci de onde vim. Incrível como a sociedade continua a mesma, os mesmos dilemas, a mesma ausência de amadurecimento emocional, as mesmas situações. Absurdamente incrível a semelhança!

O que dizer da convivência com a Marianne, a linda, alegre e impulsiva da família? Ela tem em mente todas as características do seu eleito e essas características nada mais são do que um reflexo de si mesma e de seus gostos. Para ela, o homem eleito precisa gostar de todas as coisas das quais ela gosta e eles não podem divergir em nada. Ela se entrega completamente a Willoughby, pois ele se encaixava nos seus critérios e ainda emitia sinais incontestáveis de que correspondia a tudo. Ela amou e sofreu com a mesma intensidade, esperou por notícias dele (naquele típico compasso de espera) e isolou-se do mundo e da vida, pois ele sempre acreditou que só haveria um amor para a vida. Como não se identificar com ela e com todas as etapas pelas quais ela passou?

Como não se encantar com o Coronel Brandon, o “senhor de 35 anos”, já velho demais para se casar, de acordo com o julgamento da própria Marianne?

Como não se divertir com a caricata Sra. Jennings e suas filhas Charlotte e lady Middleton, com seus respectivos maridos? Eles materializam todos aqueles que são movidos pelos acontecimentos na vida alheia.

Agora, o que são aquelas irmãs Steele? Simpáticas ao extremo (tenho uma teoria um pouco radical sobre pessoas muito simpáticas e que caiu como uma luva para essas irmãs), bajuladoras e interesseiras. Lucy joga com todas as suas armas, impondo-se como amiga.

E o casal perfeito, John e Fanny? Um fala e o outro assina embaixo, sem pestanejar. Egoístas e encantados com a possibilidade de ter sempre contatos com gente mais rica.

E Willoughby? Quantos dessa espécie cada um de nós já encontrou pela vida? (Eu já encontrei e me apaixonei por vários!) Boas pessoas, porém com sérios problemas de caráter. Desde manipular e usar garotas, com o propósito de enaltecer o ego e satisfazer desejos, até não ter firmeza suficiente para cumprir sua palavra. O mais curioso foi acompanhar o desfecho de sua história, com a conclusão de que no fundo ele seria um eterno insatisfeito: casou-se com a senhorita rica para não ficar na miséria e se tivesse se casado com Marianne, que ele amava, ficaria insatisfeito por ter sempre de passar por privações. E mais: que ele acabou sendo razoavelmente feliz, mesmo sem amor.

Merecia censura, muita censura, por ter permanecido em Norland ao perceber que as inclinações que sentia por ela eram mais fortes do que deveriam ser. Nisso ele não merecia defesa, mas se a magoara agindo assim, magoava muito mais a si próprio. Se o caso delas era lamentável, o dele era sem esperança. A imprudência de Edward a tornava infeliz por algum tempo, mas o impossibilitava de ter a oportunidade de algum dia deixar de ser infeliz. Com o tempo, ela poderia recuperar a tranquilidade, mas que esperança tinha ele de consegui-lo?

De quem poderia ser esse pensamento, que não da adorável Elinor? Aos 19 anos ele é tão madura emocionalmente que chega a ser uma cartilha de aprendizado. Ponderada, equilibrada, com um imenso coração e, acima de tudo, com uma compreensão das relações amorosas acima da média, mesmo 200 anos depois. Como explicar a admiração que nasce assim, acompanhando as conclusões e a linha de raciocínio dela?

“Mas não amava apenas a ele, e como a paz dos outros é importante para mim, fiquei contente por que os poupava de saberem como me sentia.” (A Elinor não é demais? :))

Edward parece até um par muito sem sal para ela e alguém como o Coronel Brandon seria muito mais adequado. No entanto, a própria Elinor não criava expectativas sobre como deveria ser seu eleito, compreendia e aceitava as limitações de Edward e, creio mesmo, que até nisso Elinor mostrou seu valor, ao se unir a alguém completamente normal e sem grandes atrativos admiráveis. A certeza de que ele era uma pessoa honrada, de que o afeto que dedicava a ela era sincero e que havia predisposição em ir adiante, fizeram com ele Edward fosse o seu eleito. Sem beleza perfeita, sem demonstrações arrebatadas, sem fortuna, sem brilhantismo intelectual ou artístico. Simples assim.

Nem preciso dizer que a narração observadora e crítica de Jane Austen encantou-me, né? 🙂

Conviver com as particularidades de personalidade de cada uma das mulheres da família Dashwood foi uma experiência incrível, observar as conversas, analisar os comportamentos, espantar-me com a futilidade da sociedade (isso me lembra algo…), respirar aquele ar das montanhas, correr pelas planícies, ouvir Marianne tocar e cantar, admirar os quadros de Elinor e, sobretudo, sentir que cresci emocionalmente durante essa convivência, fizeram-me perceber que a vida pode ser extraordinária. Isso significa que voltarei para o chalé, quando precisar novamente equilibrar razão e sentimento.


Jane, obrigada por ter escrito “Sense and Sensibility”!

Será que o filme e a série são tão bons quanto o livro?

Leituras, Percepções

Sobre clubes, leituras e uma vida menos ordinária

Um dia desses, estava eu precisando de um documentário (Estamira) e resolvi procurá-lo numa locadora que há muito eu não ia (ela é cara, porém tem de tudo!). Encontrei o documentário e ainda ganhei uma locação adicional grátis, para que eu não fique tanto tempo sem locar… 🙂 Nessa escolha adicional, deparei-me com o filme “Clube de Leitura de Jane Austen”. Resultado: levei os dois, assisti ao filme e não ao documentário (calma, eu vou pegar para assistir novamente!).

Jane Austen é uma autora que me interessa, desde quando assisti A casa do lago e a médica tinha um carinho especial por Persuasão. Desde então, esse é um livro que consta na minha lista de desejos. Nem preciso dizer que, às vezes, essas listas caem no esquecimento, não? Bom, só animei-me novamente em lê-lo depois de assistir a esse filme.

Aluguei-o pela proposta do enredo “formação de um grupo de leitura”, o que me interessou muito. Lógico que o filme traz elementos superficiais sobre as obras da autora (além de cada livro “combinar” com o dilema de determinado personagem), ainda mais para quem não as leu. No entanto, a proposta de reunião de um grupo de pessoas que se propõe a ler um livro por mês e depois se encontrar para discutir a história (cada mês na casa de um) foi o elemento vital do filme para mim. 

Pausa, para tudo! Como assim, ler um livro que não seja “para fazer algo” ou que “sirva para alguma coisa” e ainda ter um encontro com pessoas com as quais você possa discutir sobre o assunto, mensalmente? O impacto dessa informação em mim foi muito grande, ainda mais em tempos de vida estúpida (leia-se: muito trabalho e preocupação), na qual não há com quem se discutir o que quer que não seja “utilitário”. O que é um grupo que lê e se reúne, sem aquela velha ladainha “NÃO TENHO TEMPO”? Como tenho estado um pouco farta dessa desculpa do “estou sem tempo”, a história caiu-me como uma luva.

Comentei com várias pessoas sobre o filme, com a proposta da leitura e do clube. Nem preciso dizer que todos foram unânimes em achar isso o máximo: encontrar-se uma vez por mês com determinadas pessoas e discutir sobre um assunto de interesse comum, sem ser aqueles chatíssimos e quase obrigatórios “happy hours”. Agora, todos também disseram que não tinham tempo para isso, quiçá a leitura de um livro. Fiquei com a impressão de que nesse mundo sem tempo para a vida, é cada vez mais difícil sair desse ciclo.

E tudo isso eu estou dizendo para mim mesma, viu? Afinal, nem no blog tenho escrito, né? 😦

Desde quinta-feira estou lendo “Razão e Sensibilidade”, o primeiro livro publicado da Jane Austen, há 200 anos. Fiquei com um frio na barriga quando soube disso. Em meio ao caos da minha vida agora – pintura (o meu home office está ficando lindo!), confecção de presentes (caixas em cartoon mousse), patchwork, compromissos domésticos (abastecimento, contas, organização), inglês (ainda devagar), elaboração e correção de provas, montagem de atividades, planejamento de aulas, caminhada, gripe, trabalho voluntário, dormir (desespero por cinco horas de sono!) -, ver o mundo pelos olhos de 200 anos atrás e perceber como quase nada mudou, tem sido uma experiência única.

Tenho lutado todos os dias por uma vida menos ordinária. Juro, é algo que não me sai da cabeça e do coração. Agora a Jane (viu só a intimidade?) tem me ajudado nisso. E o meu clube está cheio de gente agora: Elinor, Marianne e Érika, além de todos os outros personagens do livro. Encontrarei com eles, um pouquinho, todos os dias, e conversaremos sobre nossas emoções e faremos reflexões sobre a vida e o amor. Confesso que estou acreditando no que a fundadora do clube, no filme, disse: que Jane Austen é um ótimo remédio para a vida. Depois eu conto se é, tá? 🙂

VEJA O TRAILER DO FILME AQUI!

Descobri também que tem muita gente que gosta dela. Dê uma espiadinha nos seguintes endereços, caso tenha se interessado pelo assunto: JANE AUSTEN EM PORTUGUÊS e JANE AUSTEN BRASIL.

Desejos, Leituras, Percepções

Do brega ao bom

Depois de um show do Sidney Magal (isso mesmo, não se assuste!) no jantar de confraternização do sábado, nada melhor do que ouvir boa música no domingo. E o melhor, boa música a um preço pra lá de decente! O show “Diálogos musicais: memória e verdade”, no Sesc Pinheiros, foi realmente fantástico. Quanto samba bom! Que saudade de uma bela gafieira (aliás, que eu nem sei mais!) e da sensação de dançar.

Uma noite ótima não poderia terminar sem poesia e dança. Pois é, daquelas poesias! Com direito a leitura em francês, com tradução simultânea e leituras que quebram barreiras. Surpreendi-me com as traduções de José Paulo Paes. De que tipo de poesia? Bem, daquelas. 🙂 O triângulo no forró também marcou o descompasso de pés.

Uma das músicas da noite:

 

Aulas de forró para treinar:

Desejos, Leituras, Percepções

Der Vorleser, Erster Teil III-8 – Bernhard Schlink (wiederum und jederzeit!)

“Ich hatte ihren Geruch früher besonders geliebt. Sie roch immer frisch: frisch gewaschen oder nach frischer Wäsche oder nach frischem Schweiβ nicht, was für eines, und auch dessen Duft war mehr als alles andere frisch. Unter diesen frischen Gerüchen laf noch ein anderer, ein schwerer, dunkler, herber Geruch. Oft habe ich an ihr geschnüffelt wie ein neugieriges Tier, habe an Hals und Schultern angefangen, die frisch gewaschen rochen, habe zwischen den Brüsten den frischen Schweiβgeruch eingesogen, der sich in den Achselhöhlen mit dem anderen Geruch mischte, fand diesen schweren, dunklen Geruch um Taille und Bauch fast pur und zwischen den Beinen in einer fruchtigen Färbung, die mich erregte, habe auch ihre Beine und Füβe beschnuppert, die Schenkel, an denen sich der schere Geruch verlor, die kniekehlen, noch mal mit leichtem frischem Schweiβgeruch, und die Füβe, mit dem Geruch von Seife oder Leder oder Müdigkeit. Rücken un Arme hatten keinen besonderen Geruch, rochen nach nichts und rochen doch nach ihr, und in den Handflächen war der Duft des Tages und der Arbeit: die Druckerschwärze der Fahrscheine, das Metall der Zange, Zwiebel oder Fisch oder gebratenes Fett, Waschlauge oder Bügelhitze. Werden sie gewaschen, verraten Hände zunächst nichts von alledem. Aber die Seife hat die Gerüche nur überdeckt, und nach einer Weile sind sie wieder da, schwach, verschmolzen in einen einzigen Tages – und Arbeitsduft, in den Duft des Tages – und Arbeit sendes, des Abends, der Heimkehr und des Daheim seins.”

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Se eu sei alemão? Não, não sei. No entanto, sou apaixonada por esse livro e fiz questão de ficar olhando para as palavrinhas escritas em alemão na versão original, só para identificar os trechos dos quais gosto. Hoje, lendo trechos de “O cortiço” que faziam menção a esse mesmo tipo de sensação (só que em Schlink, de modo maravilhosamente poético na tradução), lembrei-me que a cópia que eu estava fazendo ficou pela metade. O que é viver algo assim? Gosto tanto porque nunca vivi nada igual e nem acredito que vá viver, sinceramente. Se não existe algo assim ou se eu não vivenciar algo assim, ainda bem que existe a literatura!