Pequena vitória ciclística

Não é uma “ideia fixa” nos moldes machadianos, mas vou falar de novo de bicicleta, enquanto as postagens sobre outros assuntos continuam no rascunho (tenho rascunhos de 2010, só pra dar uma ideia do que eu digo!) e o acontecimento ainda está dentro do mês.

A condição que me impus para a vinda da Nina (minha Caloi City Tour) era a de utilizá-la com frequência, então eu estabeleci a meta de andar 100km por mês. Quem anda de bicicleta sabe que esse número é ridiculamente baixo, mas para mim equivale a um Tour de France, tamanha a dificuldade que enfrento para conseguir me dar esse presente. Mas, isso é tema pra outro post.

Aliada a essa meta, eu tinha também o desafio de aprender a pedalar pela cidade, afinal eu era ciclista de quarteirão em bairro residencial da periferia. Mesmo com a companhia do meu bike anjo (oi, Hermes!) e com todas as instruções dele, eu tive de me esforçar bastante para não ter medo e entender meus deveres e direitos utilizando esse meio de locomoção, quando comecei a circular pela cidade. Do meu aprendizado, no “estágio supervisionado”, ficaram os seguintes itens:

1- Nunca andar pela calçada nem na contramão. A bicicleta segue o fluxo dos carros e calçada é o local do pedestre. E a lei é clara em dizer que o veículo maior PROTEGE o menor e todos protegem o pedestre. Curioso como desde sempre, a “lei da selva” é inversamente proporcional e dita que o maior INTIMIDA o menor e o pedestre que se salve, se puder (eu, por exemplo, quando criança, tive uma fratura tripla no tornozelo, por ter sido atropelada em cima da calçada).

2- Sempre usar os equipamentos de segurança: capacete, iluminação dianteira e traseira. Além de ter sempre um kit de ferramentas e remendo (confesso que ainda não aprendi a lidar com um pneu furado, mas o kit está lá!).

3- Eu devo e posso ocupar a faixa da direita (não na guia, local mais perigoso e propenso a acidentes), de forma assertiva, com atenção redobrada para as investidas dos carros. Interessante que quanto melhor a gente ocupa esse espaço, menos chance do carro dar as perigosas fechadas.

4- Não usar fone de ouvido ou celular durante o pedal (risco alto, proibido e desnecessário) e sempre sinalizar as conversões com o braço.

5- O ciclista deve circular pela ciclovia, quando ela existir, mas pode optar pela via com os carros, caso haja problemas na circulação da ciclovia, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro. Caso aconteça de um ciclista estar na via em lugares em que há ciclovia, pode acreditar que houve uma ponderação para isso: buracos; segurança; necessidade de fazer alguma conversão logo a frente; fluxo grande de pedestres na ciclovia; fluxo grande de pessoas em ritmo de passeio (menos de 20km/h) e/ou com variados meios de transporte diferentes e que deixam o trecho de ciclovia inseguro; necessidade de andar em uma velocidade acima da permitida na ciclovia etc… No trânsito, esses tipos de ponderação sempre ocorrem, quer estejamos no papel do pedestre (quando opta por andar na rua ou atravessar num local sem faixa) ou de motorista (passar no farol vermelho de madrugada num local perigoso, por exemplo)… 😉

Estou contando tudo isso para mencionar a minha pequena vitória na última sexta-feira, dia 18. Eu fui, com a Nina, a um evento no Sesc Pinheiros. Sozinha, com ameaça de chuva e à noite. Tive muito mais coragem do que imaginei que teria, na verdade ela simplesmente surgiu durante o pedal (sim, a vontade de chegar lá para assistir à mesa-redonda de poesia marginal feminina era muito grande!) que foi um marco para mim.

Na ida, fui pelo mesmo caminho que já estou acostumada: Berrini na faixa da direita. Pela primeira vez, talvez porque estivesse sozinha, um cara de um carro incomodou-se demais com a minha presença (detalhe, eu estava sozinha na direita, ele estava na faixa da esquerda, sozinho também) e ficou gritando “Moça, vai pra ciclovia!”. Passei mentalmente todo um checklist da minha situação: capacete, luzes acesas, pista livre, ocupação correta da pista, ciclovia cheia de bikes amarelas e patinetes, chuva no meu encalço, velocidade de 31km/h. Logo que ele não podia me mandar pro fogão mesmo (ir, pra algum lugar, só se for pra ser “gauche na vida”), pedalei ainda mais forte, passei por ele no semáforo e continuei meu caminho, pois o tempo urgia e as gotas já estavam começando a cair. Ao desencanar dos gritos, perdi-o de vista e VRUMMMMMMMMMMMMMMM.

Estava muito quente, lá pelos lados do Shopping Iguatemi as poucas gotas já haviam cessado, a ciclovia estava menos tumultuada e o destino quase chegando. Deixei a Nina no bicicletário do Sesc, tranquei-a, tirei as luzes, a água, o velocímetro digital, verifiquei tudo e corri pro evento (ritual básico). Sim, eu fiquei suada, mas como era na praça externa, logo o ventinho da noite me refrescou. Sentei, fiquei segurando a mochila molhada de suor, o capacete e sem conseguir tirar um sorriso idiota do rosto, estava lá pegado no meu rosto e não saía!

O evento acabou tarde: 22h30 e eu tinha de fazer o caminho de volta. Satisfação 1: conseguir subir a rampa do estacionamento pedalando. É muito inclinada, muito mesmo, e eu consegui. Satisfação 2: fazer o caminho de volta em segurança e sem esmorecer as pernas para conseguir chegar. No trajeto, ciclovia já quase vazia, nenhuma garota no caminho de volta.

Se eu senti medo? Até senti, principalmente no trecho da ciclovia que sai da Rua Funchal, atravessa a Bandeirantes para entrar na Berrini. Lugar sinistro e que eu SEMPRE faço pela rua. No entanto, para minha alegria, não fiquei presa nisso, fui sentindo uma sensação boa de liberdade e atitude. Confesso que cheguei a sorrir me achando a Lara Croft na cena inicial do novo Tomb Raider (hummm… gostaram da referência de cultura de massa?).

Claro que só faltava eu ser a Lara Croft, ter e saber andar numa bike fixa, ser courier em Londres, estar na disputa da raposa ao som de “Powerz” de Avelino e remixado pelo Junkie XL (ah, Google e Hermespidia). Quase nada de diferença, mas o sorriso no rosto de satisfação era o mesmo! Se estiver preparado para assistir a uma cena de ciclismo urbano e selvagem, é só dar o play na cena mencionada!

O fato é que esse acontecimento relativamente banal me fez sorrir e manter o sorriso, me fez sentir a liberdade e a coragem, me fez sentir o coração mais leve… O coração leve, as pernas firmes, o sorriso no rosto, a cabeça nas nuvens e, por esses instantes, cheguei a sentir a leveza daquele que supera todos os seus problemas, todas as contendas emocionais e dá um basta naquilo que não serve mais. É só gratidão que chama isso tudo, certeza.

“Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.”

 

Ineditismo ciclístico

“As palavras não curam, mas são uma trégua no desamparo, melodia na solidão” é o que diz o querido Milton Hatoum na crônica “Um sonhador”. Hoje faz uma semana que fiz o pedal para o autódromo e ainda não havia escrito nada a respeito. Meu desejo era o de escrever logo no dia seguinte, não consegui… Eu até fiquei esperando a vontade de falar sobre esse dia passar, mas as sensações e as frases continuaram se formando em minha mente e no meu coração todos esses dias.

Então, eu resolvi dar uma trégua no desamparo desse caótico cotidiano repleto de prazos e demandas (quiçá estas também tivessem aumentado somente os 3% da remuneração!) para escrever sobre o último dia 31. Semana passada foi atípica em todos os sentidos: mais bicicletas nas ruas (aqui!), menos poluição (aqui!), um belo e necessário feriado e um pedal de 47,1km que fez com que eu concluísse a minha meta de 100km/mês pedalando.

Há muito tempo eu não ficava tão ansiosa para um evento, sem contar que a lembrança do meu pai já estava me acompanhando fazia dias. Ao chegar à Ponte Estaiada e encontrar aquele mundão de gente (a hora que eu passei fui número 5.008), a galera toda feliz, o som alto, a satisfação de ainda ter kit (confesso que fiquei decepcionada por não ter vindo um tucaninho de pelúcia… 😛 #sqn!) para ser a minha primeira lembrança de m evento e fazer a estreia oficial da Nina (ôh maravilha de bicicleta!) deixou meu coração bem leve.

A ida foi por dentro dos bairros (Chácara Santo Antônio, Alto da Boa Vista, Socorro, Veleiros e Interlagos) e a volta pelas avenidas Interlagos e Nações Unidas. Dentro do autódromo foram quase duas horas de diversão e cansaço. Eu nunca havia entrado no lá pelo portão 7: uma descidinha com direito a curva e túnel, já com vista para a pista. Ao vislumbrar a pista, muita gente já estava circulando alucinadamente e foi uma imagem bonita de ser ver, aquele bando de luzes vermelhas piscando, era muita gente! Afinal, quando chegamos ao autódromo, apesar de ser 18h, já estava bem escuro.

Dei minha primeira volta morrendo de medo das pessoas se atropelarem e haver uma queda, também de não conseguir cumprir a distância da temida subida dos boxes e ter de empurrar a Nina com a língua pra fora. Naquela altura da noite, eu já havia quebrado o recorde de pedalar, o que me deixou apreensiva. A cada parte da pista com asfalto impecável, um sorriso se abria: ora era um que gritava “uhuhuhuhu” e se divertia como criança nas curvas e descidas, ora outro com macacão (um parecido com aquele azul lindo de quando ele era da Williams) e capacete (o lendário verde e amarelo) do Senna, ora outro com caixa de som e a inesquecível música da vitória, além da galera que, antes de descer, parava pra apreciar a Curva “S” do Senna….

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Até a Nina parou pra ficar olhando o “S”…

Naquele momento, eu revivia toda uma infância/adolescência em que ouvia o som dos motores da minha casa, em que ia com meu pai (que adorava F-1) até o portão do autódromo no dia da corrida só pra ver o movimento e, principalmente, os poucos momentos de harmonia que tivemos juntos. Após a primeira volta, parei e acomodei a Nina no gramado, sentei-me e fiquei olhando a pista, as luzes, a emoção ou cansaço das pessoas e fiz um convescote com minhas lembranças e meu pai. Foi um momento único comigo, com ele, com as lembranças, com o bem-estar que eu estava sentindo e com a vontade de tê-lo ali, ajudando-me a olhar tudo aquilo. Não sei como explicar a epifania do momento, porém foi como se tivéssemos tido mais uma chance para compartilharmos algo.

No total, fiz três voltas na pista (quase 13km) e alcancei a incrível marca de 42km/h! Uhuhuhuhuhuhu… Na saída, em meio a centenas de pessoas, ainda encontrei uma vizinha de infância que se mudou do bairro e que eu não via há muito tempo, mas que me disse ter saído da depressão (por conta da morte traumática do pai, aliás na rua da minha casa) desde que começou a andar de bicicleta. Só a galera dela contava com 80 pessoas! Encontro de acaso e que também deu uma aquecida no coração.

As palavras desse relato formaram uma melodia única para essa memória (PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM / PÃPÃPÃM PÃPÃPÃM) e, de fato, deu-me uma trégua nesse desamparo existencial. Que venham mais pedais e se construam mais memórias afetivas!

 

 

19 km depois…

A bicicleta foi uma constante na minha infância (assim como os patins e a bola de vôlei) e eu lembro nitidamente o dia em que aprendi a andar sem rodinhas. Eu achava linda a minha Monark verde e o Tio Valter estava comigo na rua da casa de meus avós. Só me lembro dele ter dito um pouco bravo que tiraria aquelas rodinhas e que eu andaria sem elas.

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If you could go back in time…

After watching “Back to the Future” everybody dreams about changing something in the past, maybe this is an unconscious coletive wish.

The reason why I would change this part of the history is because nowadays I know the loss to everyone. I carried out this: to prevent Prestes Maia from becoming the mayor of São Paulo in 1938, when he implemented the road system in the city. This system was designed to favor cars, he opted for the multinational automotive companies and the real estate market. Both were benefited, besides that politicians and entrepreneurs made a profit.

If he had implemented his plan (Avenues Plan) and had also privileged the river system first, the second railway road system and only then the road system, the paulistano citizen wouldn´t have, among other problems, the terrible and seemingly unsolvable current traffic problem.

If I had power to change this specific portion of the past, I would do this as the intelligent and crazy scientist Doc Brown and how the brave and young Marty McFly.

Fiz esse texto como exercício para a prova de inglês: eu tentei usar a forma condicional, voz passiva, algumas palavras que precisam de preposições específicas, recurso de ênfase e “phrasal verbs”…

Fica a pergunta: o que você mudaria se pudesse voltar no tempo?

 

Walking Tour: pauliceia da garoa desvairada

Praça da Sé, com o Marco Zero e a Catedral Metropolitana; Palácio da Justiça; Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal; Solar da Marquesa + Museu da Cidade de São Paulo + Casa Nº 1/Casa da Imagem; Pateo do Colégio; Centro Cultural do Banco do Brasil; Praça Antonio Prado; Avenida São João; Praça das Artes, Largo do Payssandu + Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos + Ponto Chic; Galeria do Rock; Biblioteca Mário de Andrade; Terraço Itália; Praça da República. É uma caminhada que não cansa os pés nem os olhos nem o coração.

É a terceira vez que circulo pelo centro para fotografar e a sensação de fazer isso é sempre incrível. Não é um amor desmedido e sem temor, mas também não é o descaso nem o asco que normalmente acompanham quer que se seja, quando o centro histórico é mencionado. É um afeto que se tem construído aos poucos e muito bem alicerçado.

É um querer lembrar de frases em Tupi ao sentar no jardim jesuíta, é querer saber mais da marquesa que não deixou vestígios em sua própria casa, é entender e vivenciar os triângulos que formam os caminhos do centro, é surpreender-se com o centro velho e o centro novo (que já é velho há muito tempo), é querer enxergar os rios que rolam por debaixo de nossos pés, é tentar visualizar o Beco do Pinto em funcionamento, é desejar ardentemente que aquele lugar voltasse a ter a vida pulsando de um século atrás, é olhar para toda aquela gente ainda mais abandonada que o centro e sentir o coração pulsar de humanidade (sim, toda aquela gente não é a escória nem a sujeira do centro, ao contrário do que muitos pensam), é sentir a pauliceia pulsando por debaixo de tudo aquilo e ter ouvidos para escutar a poesia que ainda persiste, é notar o quanto o gestor da cidade não tem nada a ver com a cidade… (ops, não resisti, mas essa percepção foi a pura verdade!)

Patagônica epifânica

Catedral Metropolitana de Santiago, no Chile

Não, esse título não é o nome de um novo pacote de viagens de uma agência!

Epifania num sentido amplo e gerérico é uma aparição ou manifestação divina. Em literatura usa-se muito esse termo para se referir ao momento no qual a narrativa traz uma revelação, por meio de um episódio marcante. Uma simples e rotineira narrativa pode trazer um momento em que as personagens (ou o leitor por meio delas!) têm uma percepção de uma realidade atordoante e inusitadamente forte, que se revela pela súbita consciência de algo, num próprio momento de êxtase.

Uau! E, afinal, por que estou falando tudo isso? Para contar sobre a travessia dos lagos andinos, para tentar explicar o porquê da demora em escrever (afinal, não é nada fácil controlar o êxtase) e mostrar como eu entrei num novo e desconhecido mundo, epifânico e mágico, que reverbera em minha alma a cada respiração. Quando eu fiz essa imagem que abre o post, ainda sem imaginar o que eu encontraria, havia um prenúncio de exploração e emoção que me vieram à mente no momento em que cliquei e que me mostrariam novos caminhos dali por diante.

Patagônia chilena e argentina

Sempre que eu ouvia qualquer menção à região da Patagônia, a minha associação era com algum lugar muito distante, bem no fim do mundo. O que eu não sabia é que a Patagônia é muito grande e que, apesar de no Sul ser chamada de “fim do mundo”, em meio à Terra do Fogo; no Norte, é como se estivéssemos no início dele. É tanta beleza que o mundo só pode ter começado ali! 

E, com essa mania de acreditar que a natureza obedece aos desígnios geopolíticos do ser humano, pensava que só a Argentina era “dona” de tudo isso, afinal, só se ouve falar em “Patagônia Argentina”. Ledo engano, ela abrange também o Chile e, nada melhor (para desculpar-me por tamanha ignorância) que conhecê-la nos dois lados.

Confesso que sempre fui muito descrente em relação à mudança das pessoas. Mesmo acreditando no poder renovador de uma viagem, nunca imaginei que a regeneração da alma também pudesse ocorrer num período tão curto. Atravessar a Cordilheira dos Andes, navegar por lagos profundos e de cor verde-esmeralda, subir a “cerros” incríveis e pousar os olhos, todo o tempo, em árvores, flores, vulcões e águas deixou marcas profundas em mim, ainda que em tão pouco pouco de contato. Tenho certeza de que a epifania se deu em seu três estados. Foi uma epifania sublimatória (sublimação do ser/existir), libertária (quebra de paradigmas cristalizados) e de encantamento (natureza artística). Talvez por isso tenha sido tão intensa… E, como acredito que doses homeopáticas sejam muito melhores para desmembrar toda essa visão, contarei aos poucos essa experiência, com o antes de chegar à Patagônia (em Santiago do Chile), durante a travessia da Cordilheira, a visão do campanário e a volta para a realidade em Buenos Aires.

Caro leitor, você já teve uma sensação assim? Como foi? Ele se desfez ou se sedimentou na alma?

Lago Llanquihue e vulcão Osorno - Puerto Varas/Chile

Roma: cidade (realmente) eterna

Receber a alcunha de Cidade Eterna não é pra qualquer cidade. Bom, mas quem disse que Roma é qualquer cidade? Para ela, é perfeita e sem exageros.

Basílica de São Pedro

Até eu chegar a Roma, não esperava muita coisa, pois sua beleza para mim, não saía do nível abstrato. E que delícia foi surpreender-me! Pouquíssimas circunstâncias me causam surpresa e admiração atualmente (mentira, sempre me surpreendo com a falta de caráter das pessoas, por mais que espere por isso… :() e sentir isso foi algo realmente fantástico.

O ar de império ainda está em Roma. Tocar as ruínas do Coliseu ou as colunas internas da Basílica de São Pedro fizeram com que minha percepção tátil registrasse aqueles momentos, que se tornarão eternos para mim. Aliás, só tenho a agradecer ao Rei, por me dar essa dica do toque, pois mesmo sendo uma pessoa que ama esse sentido, nunca havia pensado nisso para lugares…

Descobri nessa viagem duas coisas lamentáveis: a primeira é que minha máquina fotográfica é muito mais que limitada (passei muita raiva!!); a segunda é que, além de não saber fotografar, ainda me peguei não tendo paciência para isso (uma lástima, pois é uma arte que admiro demais!).

 

Ruínas do Templo de Apolo, vistas do Coliseu

Não sei se por conta da quantidade de coisas pra ver e não dar conta de registrar toda a beleza que fazia meu coração bater mais forte, não sei se o pouco tempo que fiquei na cidade, não sei se a vontade de querer registrar tudo só pelas lentes da alma… Só sei que minhas fotos ficaram horríveis! Vi muita gente mais fotografando, que vendo. Eu queria mais ver, que fotografar. Estranho isso…  

Meus olhos queriam captar toda a harmonia de um Império. Pois é, ainda vi um império, apesar de todas aquelas ruínas.  A presença marcante do catolicismo, em nenhum instante apaga a tradição pagã. Quer seja nas ruínas dos templos pagãos ou no Panteão – maravilhoso e que não consegui uma só foto que prestasse… 😦 -, único templo preservado, por ter sido transformado em igreja católica. Felizmente fizeram isso, senão não haveria mais aquela beleza para contemplar e aconteceria o mesmo que aconteceu, por exemplo, com o Coliseu. Completamente saqueado, afinal ele era todo revestido de mármore travertino.

Uma vez recebi da Mara um postal de Amsterdã, nele havia a seguinte mensagem: “Quem lê, viaja. Quem viaja, lê o mundo de uma forma indescritível”. Creio que foi isso que aconteceu comigo: tudo o que eu havia lido sobre o que é viajar não foi nada perto do que eu senti ao empreender a minha viagem, pois eu fiz a melhor leitura da minha vida. Li história, li paixão, li arte, li guerra, li poder, li o belo, li outras nacionalidades, li a vida. Consequentemente, tudo começou a ter uma outra forma, talvez indescritível, com certeza intensa e diferente.

Agora não me contento mais com dias beges e emoções mornas. Creio que seja por isso que uma cidade como Roma, continua sendo a Cidade Eterna, por despertar uma sensação de grandiosidade e potência, de admiração e comoção pelo belo que, para mim, ainda nenhuma outra cidade despertou. Voltei com Roma na alma.

Agora, para quem quiser ver fotos (de verdade), clique nesse link (Cidade eterna), que abrirá um lindo PowerPoint retirado do site da Cultures and Art e já em português. Vale muito a pena! Só para constar: vi um Lamborghini cor de abóbora (melhor que dizer laranja, nesse caso) maravilhoso no bairro de Trastevere e morri de vergonha de tirar uma foto (apesar de que, quem disse que sairia, não? :))

 

N´il y a pas Velib aux Dimanche

Não há Velib aos domingos.

Domingo de sol em Paris
Estação de Velib no Quartier Latin

Meu último domingo em Paris foi de sol. Ele vinha aparecendo tímido desde a 6ª feira, mas ficou exuberante só no domingo. Sol de inverno, com uma agradável temperatura de uns 12 ou 13 graus. Agradável mesmo, pois o frio seco é bem menos frio do que sentimos aqui, sem contar que eu usava minha 2ª pele térmica e maravilhosa. Lembrando que, para os franceses, foi o primeiro dia de sol, depois de semanas de frio, chuva e neve de mais de 1m de altura.

Minha primeira ideia fixa do domingo era alugar uma Velib; a segunda, ir ao museu D´Orsay. A prefeitura montou um programa de aluguel de bikes pela cidade. É só pagar a taxa (que varia de 1euro p/dia a 29euros ao ano), retirar o cartão e sua bicicleta será destravada, depois ela pode ser deixada em qualquer outro ponto da cidade (leia mais aqui). Lógico que há muitos pontos espalhados pela cidade, cerca de 750 e mais de 10 mil bicicletas. 🙂

O mais interessante é que esse meio de locomoção é MUITO usado, por pessoas de qualquer idade, com roupas comuns. Ah, e as bicicletas são lindas, pois fogem do estilo mountain bike que estamos acostumados. Lá, mesmo as que não são Vélibs, têm cestinha quase sempre e bagageiro.

Na verdade, esse hábito de andar de bicicleta não é só dos franceses, eu já vinha observando isso desde a Itália, em Roma, Piza e Turim e também em Genebra, na Suíça (aqui com chuva e uma temperatura de 6º, nem bicicletas nem carrinhos com bebês ficavam em casa!). Nem preciso dizer que eu já estava com urticária para andar em uma…

Fui cedo à primeira estação de VELIB que eu tinha visto perto do hotel e, chegando lá, não havia nenhuma! Bom, fui para a segunda: nada. Fui para a terceira: nada. Resolvi então ir de Metrô até o Louvre, assim aproveitaria para ver umas coisinhas e faria uma boa caminhada (em busca de Velibs), antes de ir até o Museu D´Orsay… Nem preciso dizer que não consegui nenhuma e olha que passei por muitas estações (vazias). Fiquei frustrada por mim e feliz em vê-las todas circulando pela cidade!

Parada para conversa e beijo (fui lenta demais e não deu tempo de registrar!), na Pont de la Concorde

Lembra que eu disse ser o primeiro dia de sol por lá? Bem, os parisienses estavam de bicicleta, patinete, patins, vespas e toda sorte de invenções (vi uma bike que parecia um carro-cápsula). A cidade estava linda e iluminada! Um movimento absurdo de corredores e ciclistas às margens do Sena e por todos os lados que eu olhava.

Foi uma emoção muito grande sentir aquele sol gostoso e ver a cidade com vida. Uma vitalidade simples, por isso bonita.

O que eu traria de Paris? Uma bicicleta e a infraestrutura da cidade para utilizá-la, sem pestanejar!

 

 

Essa não fui eu que tirei, mas retrata, num período mais quentinho, o clima das vélos na cidade

Linda terra da garoa

Garoa, garoa, garoa. Garoa fina, constante. Dia claro, pancadas fortes. São Paulo estava assim hoje. Linda, aliás. Perfeita, sem exageros. Senti hoje a cidade com cheiro de Mário de Andrade. Andei pelas ruas do centro, vi prédios lindos em sua antiguidade, entrei em lugares novos para mim (a linda Igreja de São Bento, até fiz agradecimentos lá), fiz todas as baldeações possíveis (suficientes para terminar de ler O velho e o mar) e vi pessoas. Muitas pessoas. Diferentes e desconfiadas. Deixei um livro no trem e o pouco que acompanhei, percebi que causou surpresa e medo. Num ano novinho em folha, nada melhor que fazer arte por aí. Veja só a arte de hoje:

O livro que adquiriu independência

O dia foi perfeito. Garoa no jardim florido. Visão do sofá. Garoa, garoa, garoa. A tarde e a conversa perfeitas. De imperfeito aqui, só a minha pessoa que fala demais. Acho que estraguei tudo. E, à noite, garoa. Talvez para se misturar às lágrimas, ao coração apertado e lavar as palavras excedentes.

Pessoas plurais como o universo

Não comentar nada da exposição sobre Fernando Pessoa foi uma maneira de dar tempo para interiorizar a genialidade desse poeta, múltiplo e único (com ele, isso é possível!), universalizante e pontual… Nada do que eu disser poderá ser maior ou melhor do que ir à exposição e embrenhar-se na poesia das pessoas de Pessoa. Agora, o melhor de tudo é saber que bem pertinho de onde descansam os versos multimídia do mestre e seus discípulos, materizaliza-se a multiplicidade do ser humano. O piano no saguão da Estação da Luz é a concretização da multiplicidade do ser humano, é a surpresa e a arte que surgem e encantam a quem quer que seja.

No ano passado, fui ao Museu no mês de maio, para a exposição sobre a influência da França no Brasil e, do andar da exposição, eu podia ver o saguão e o piano. Foi um encantamento à distância. Aquilo realmente mexeu comigo. Neste ano, fui até lá e minha vontade era a de não desgrudar os pés daquele saguão lindo, nem desviar os olhos daquela estrutura de estilo inglês, muito menos dos dedos daquele morador de rua, que nos encantava com sua música… O meu analfabetismo erudito não será capaz de informar o compositor, a não ser pela última música tocada “Asa Branca”.

A sensação que tive foi a mesma que o eu lírico de “A flor e a náusea” teve no poema do genial mestre Carlos Drummond de Andrade:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

O piano no saguão, as pessoas que param e ouvem, as que se arriscam a dedilhar lembranças musicais, as que desenferrujam os hábeis dedos, as dedilham as teclas sem conhecer nota nenhuma, as que sentem um despertar dentro de si, as que incluem belas notas nos ouvidos cansados e estressados do dia a dia… As pessoas traziam em si a multiplicidade de desejos do universo e a uniminidade no rosto de um sorriso.

Piano, pessoas e saguão da Luz, por Henrique Manreza