Dia de comemorar a insubordinação mental: parabéns, Drummond!

31 de outubro de 1902 nascia um dos poetas mais incríveis de todos os tempos: Carlos Drummond de Andrade. Nada mais propício para prestigiar quem deixou um legado que, felizmente, permite ao leitor pensar criticamente – e, quiçá, chegar à insubordinação mental (“piada” biográfica) -, que reproduzir um poema icônico: A flor e a náusea, do livro A rosa do povo (1945).

Ouviu o poema? Mas, ouviu bem mesmo? Tem certeza? Analisou os versos? Então, se isso aconteceu, fica a certeza de que “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

Drummond que é Drummond, que publicou isso, assistindo ao horror da 2ª Guerra Mundial diz que uma flor nasceu, resta-me observar no cotidiano flores nascendo em meio à náusea atual.

 

 

Dia Nacional do Livro – 29 de outubro

Hoje, comemora-se a chegada dos livros portugueses para compor a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Aliás, conhecê-la é um item que ainda não eliminei da minha lista e espero poder resolver essa pendência logo.

 

Quando me disseram que Vidas Secas era um livro horrível e chato, eu duvidei e fui lê-lo. Isso aconteceu no meu Ensino Médio, quando a escola para a qual eu me mudei tinha biblioteca. Lembro-me do quão abilolada fiquei ao conhecer esse espaço e não sabia para qual lado me virar ou como escolher um livro, apesar do coração batendo forte e da emoção de estar lá.

Eu vinha de uma escola pública que não tinha biblioteca (até hoje não tem) nem aula nem matéria, não havia respeito ou bem-estar, quase uma não-escola. Ainda hoje é um local sombrio e caindo aos pedaços. Afinal, criada na gestão PDS, abandonada pela gestão PMDB e enterrada na gestão PSDB, não haveria como estar em uma situação diferente. E pra não dizer que não falei das flores, posso dizer que minha permanência nessa escola não foi de toda perdida: um dia consegui ler um livro que estava jogado numa sala empoeirada, o Peter Pan na narrativa moldura de Monteiro Lobato e tive contato com o Movimento Punk (eu conto um pouco nisso na minha memória de leitura, aqui). Era com essa imensa bagagem que eu chegava à escola que tinha biblioteca.

Os não recomendados foram “Vidas Secas” e “Dom Casmurro”, ambos intragáveis, de acordo com a opinião dos demais estudantes. Mesmo sem bagagem de leitura, não acreditei no que me diziam e resolvi saber por mim mesma. Mergulhei em “Vidas Secas” e quase acabei com a aridez daquela terra com as minhas lágrimas.

Lágrimas de indignação, diga-se de passagem. Pela história? Sim. Mas também por todos aqueles que disseram o que disseram sobre o livro. Como assim, as pessoas tinham lido e não tinham tido, ao menos, empatia com aquela situação extrema da ausência de voz do ser humano? Chorei por não conseguir entender a aridez daquelas “vidas” e mentes que não tiveram o mínimo discernimento para a narrativa.

Mal sabia eu que esse tipo de situação seria muito mais corriqueira do que eu gostaria que fosse (na verdade, cada vez mais comum!). Talvez tenha sido nesse momento que eu tenha passado da fase de “viajar para outros lugares” para a fase “me colocar no lugar do outro”. Talvez também, nesse momento, o velho Graça tenha me salvado da seca que assola cérebros e corações. Talvez por isso eu esteja pensando tanto nesse livro nos últimos dias… Ontem, ao sair com ele, segurava-o com força, pois o medo de não poder mais discutir sobre um livro desse em sala de aula, um respeitável Sr. Livro de 80 anos, pareceu-me um grande perigo.

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Depois que a leitura do livro “Meninos sem pátria” do Luiz Puntel ter sido “suspensa” no colégio (aqui, aqui e, boa notícia, aqui), de amiga próxima em colégio humanista de elite ter tido a escolha de um conto não ter sido aprovada pela coordenação (acusado de “racismo inverso”, sendo que a cor da personagem nem foi descrita), dá pra imaginar que ler “Vidas Secas” e analisar em aula seria motivo mais que suficiente para ser filmada e denunciada como “doutrinação comunista” no celular divulgado ontem à noite, como forma de garantir uma escola sem partido…

O jeito será encontrar, cada vez mais, conhecimento (que é força) e sabedoria (que é  segurança) nas páginas dos livros. E, se eu não acreditar que livro possa combater a barbárie, é melhor mudar de profissão e ser uma hater profissional (olha que paga mais que as escolas públicas estaduais, sem precisar estudar, só vomitar asneiras!) ou uma exímia manipuladora de Photoshop para fazer montagens incríveis ou memes impagáveis. Enquanto isso não acontece, vou ler para não acreditar em tudo que me dizem no mundo virtual.

Parabéns ao Dia Nacional do Livro, espero que ele possa ser a única arma a ser usada daqui em diante!

 

19 km depois…

A bicicleta foi uma constante na minha infância (assim como os patins e a bola de vôlei) e eu lembro nitidamente o dia em que aprendi a andar sem rodinhas. Eu achava linda a minha Monark verde e o Tio Valter estava comigo na rua da casa de meus avós. Só me lembro dele ter dito um pouco bravo que tiraria aquelas rodinhas e que eu andaria sem elas.

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Walking Tour: pauliceia da garoa desvairada

Praça da Sé, com o Marco Zero e a Catedral Metropolitana; Palácio da Justiça; Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal; Solar da Marquesa + Museu da Cidade de São Paulo + Casa Nº 1/Casa da Imagem; Pateo do Colégio; Centro Cultural do Banco do Brasil; Praça Antonio Prado; Avenida São João; Praça das Artes, Largo do Payssandu + Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos + Ponto Chic; Galeria do Rock; Biblioteca Mário de Andrade; Terraço Itália; Praça da República. É uma caminhada que não cansa os pés nem os olhos nem o coração.

É a terceira vez que circulo pelo centro para fotografar e a sensação de fazer isso é sempre incrível. Não é um amor desmedido e sem temor, mas também não é o descaso nem o asco que normalmente acompanham quer que se seja, quando o centro histórico é mencionado. É um afeto que se tem construído aos poucos e muito bem alicerçado.

É um querer lembrar de frases em Tupi ao sentar no jardim jesuíta, é querer saber mais da marquesa que não deixou vestígios em sua própria casa, é entender e vivenciar os triângulos que formam os caminhos do centro, é surpreender-se com o centro velho e o centro novo (que já é velho há muito tempo), é querer enxergar os rios que rolam por debaixo de nossos pés, é tentar visualizar o Beco do Pinto em funcionamento, é desejar ardentemente que aquele lugar voltasse a ter a vida pulsando de um século atrás, é olhar para toda aquela gente ainda mais abandonada que o centro e sentir o coração pulsar de humanidade (sim, toda aquela gente não é a escória nem a sujeira do centro, ao contrário do que muitos pensam), é sentir a pauliceia pulsando por debaixo de tudo aquilo e ter ouvidos para escutar a poesia que ainda persiste, é notar o quanto o gestor da cidade não tem nada a ver com a cidade… (ops, não resisti, mas essa percepção foi a pura verdade!)