Desejos, Percepções

Um sonho azul

Casinha de Sapê com flores

O dia em que eu escrever minha “Memória Musical”, certamente a primeira música que figurará nesse resgate mnemônico será “Casinha de Sapê” do Tim Maia. Eu era pequena, pouco depois da morte da minha avó. Os sábados de limpeza no meu avô eram permeados pelo sonzinho ligado… Lembro-me perfeitamente dessa música e de mim encantada com a melodia, com a letra e com a esperançosa alegria que me tomava, nem sem saber direito o porquê. Meu tio Beto era fã do Tim Maia e essa voz do Tim Maia é algo impregnado na minha alma, talvez como essa profunda tristeza que ele sempre conseguiu expressar em som… 

Outros músicas também comporão esse cenário da “Alta Infância”: “California Dreamin´” do The Mamas & The Papas e “Eduardo e Mônica” da Legião Urbana (adorei essa versão de homenagem da Vivo)… Incríveis, aconchegantes e que fazem sonhar…

É logico que eu, com toda a minha dificuldade em entender o que é cantado (até em português!), só poderia cometer equívocos ao cantar as músicas! Risos. O primeiro desses enganos, certamente foi com uma outra música do Tim Maia, “Azul da cor do mar”. Uma tragédia essas minhas confusões sonoras! Somente euzinha para confundir ‘VIR A ACHAR” com “VIAJAR”! Pois é, foi o que aconteceu com essa música… 🙂

Eu sempre sonhei com viagens. Outras culturas, línguas, costumes, paisagens e, principalmente, o fator distância, sempre foram minha válvula de escape. Apaixonei-me pelo planeta Terra, todo azul, naquele famoso planisfério escolar. Não me cansava e não me canso em ver países no papel… E, agora, também na vida real. E, como esse post tem o objetivo de inaugurar uma série sobre viagens, então resolvi colocar essa música que, mesmo não dizendo “viajar” e sim “vir a achar”, serve perfeitamente para os meus propósitos de compor meu sonho azul, azul da cor do mar nas viagens. É o que me resta, mesmo.

“E na vida a gente / Tem que entender / Que um nasce pra sofrer / Enquanto o outro ri.. / Mas quem sofre / Sempre tem que procurar / Pelo menos vir achar / Razão para viver… / Ver na vida algum motivo / Pra sonhar /  Ter um sonho todo azul / Azul da cor do mar” 

De verdade, dá ou não dá pra encaixar o “viajar” aí? 🙂

Azul, da cor do lago…
Lago Llanquihue em Puerto Varas – Chile (2012)
Percepções

Infinito… particular…

O verbo no infinito

Vinícius de Moraes

Ser criado, gerar-se, transformar

O amor em carne e a carne em amor; nascer

Respirar, e chorar, e adormecer

E se nutrir para poder chorar

 

Para poder nutrir-se; e despertar

Um dia à luz e ver, ao mundo  e ouvir

E começar a amar e então sorrir

E então sorrir para poder chorar.

 

E crescer, e saber, e ser, e haver

E perder, e sofrer, e ter horror

De ser e amar, e se sentir maldito

 

E esquecer tudo ao vir um novo amor

E viver esse amor até morrer

E ir conjugar o verbo no infinito…

Rio, 1960

Leituras, Percepções

Clarice Lispector ou Antes que o mês acabe

Creio que eu esteja passando pelo período de Aquário, pois foco não tem sido o meu forte esses dias… A multiplicidade é muito mais interessante! Minhas leituras estão mudando, assim como muda meu estado de espírito. Semana passada eu havia começado “Desde que o samba é samba” do Paulo Lins. Não resisti ao fato do livro estar indo para as prateleiras da livraria naquele instante em que eu entrei na loja e, como adoro o autor e adorei a sinopse, comprei. Muito sexo e pouco samba depois, resolvi deixá-lo em suspenso, de castigo…

E, como o ânimo mudou, assim como mudou o teor sms do meu dia, parti, sem titubear, para “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” da Clarice Lispector. Bom, todo esse preâmbulo somente para comentar sobre duas passagens do início do livro. Eu já o li e sei o quanto mexe comigo. Eu já o recomecei duas ou três vezes e sempre paro logo depois da lágrima. Essa primeira parte está toda grifada e comentada e a cada vez que releio sinto uma identificação ímpar. Só que dessa vez eu descobri algo a mais.

“Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguira acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição). (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava). E de repente sorriu para si própria com um sorriso amargo, mas que não era mau porque também era de sua condição. (Lóri se cansava muito porque ela não parava de ser).”

Eis a síntese de tudo. Estranho isso, não? Ler algo que contempla o que sentimos e o que somos. É uma sensação estranha e conhecida, é uma descoberta, como aquela do Caeiro “Sei ter o pasmo essencial / Que tem uma criança se, ao nascer, / Reparasse que nascera deveras… / Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo…”. E foi bem isso que (re)aconteceu quando li esse trecho. Mas, a querida Clarice não parou por aí, e ela que me conhece como a palma da sua mão, continuou, sem piedade.

“Era uma velha de quatro milênios. Não – não fazia vermelho. […] A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível – que era seco como a febre de quem não transpira era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos mas duros – e sobretudo a boca voraz para nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada pelo planeta Marte.”

Talvez eu nunca tivesse reparado nesse trecho (difícil, mas possível). Talvez eu não estivesse com “olhos de descoberta” para ler e entender esse trecho. Visceral, no mínimo. E, retomando aquela conversa sobre epifania, foi nesse momento que descobri o porquê das releituras sempre pararem logo após a lágrima: é que eu ainda não senti a falta de sede. Se essa percepção da sede não existe, tampouco existirá a disposição para a aprendizagem da Lóri.

Ainda não é hora de (re)continuar o livro, mas pode ser que ela esteja chegando.

Lugares, Percepções

Patagônica epifânica

Catedral Metropolitana de Santiago, no Chile

Não, esse título não é o nome de um novo pacote de viagens de uma agência!

Epifania num sentido amplo e gerérico é uma aparição ou manifestação divina. Em literatura usa-se muito esse termo para se referir ao momento no qual a narrativa traz uma revelação, por meio de um episódio marcante. Uma simples e rotineira narrativa pode trazer um momento em que as personagens (ou o leitor por meio delas!) têm uma percepção de uma realidade atordoante e inusitadamente forte, que se revela pela súbita consciência de algo, num próprio momento de êxtase.

Uau! E, afinal, por que estou falando tudo isso? Para contar sobre a travessia dos lagos andinos, para tentar explicar o porquê da demora em escrever (afinal, não é nada fácil controlar o êxtase) e mostrar como eu entrei num novo e desconhecido mundo, epifânico e mágico, que reverbera em minha alma a cada respiração. Quando eu fiz essa imagem que abre o post, ainda sem imaginar o que eu encontraria, havia um prenúncio de exploração e emoção que me vieram à mente no momento em que cliquei e que me mostrariam novos caminhos dali por diante.

Patagônia chilena e argentina

Sempre que eu ouvia qualquer menção à região da Patagônia, a minha associação era com algum lugar muito distante, bem no fim do mundo. O que eu não sabia é que a Patagônia é muito grande e que, apesar de no Sul ser chamada de “fim do mundo”, em meio à Terra do Fogo; no Norte, é como se estivéssemos no início dele. É tanta beleza que o mundo só pode ter começado ali! 

E, com essa mania de acreditar que a natureza obedece aos desígnios geopolíticos do ser humano, pensava que só a Argentina era “dona” de tudo isso, afinal, só se ouve falar em “Patagônia Argentina”. Ledo engano, ela abrange também o Chile e, nada melhor (para desculpar-me por tamanha ignorância) que conhecê-la nos dois lados.

Confesso que sempre fui muito descrente em relação à mudança das pessoas. Mesmo acreditando no poder renovador de uma viagem, nunca imaginei que a regeneração da alma também pudesse ocorrer num período tão curto. Atravessar a Cordilheira dos Andes, navegar por lagos profundos e de cor verde-esmeralda, subir a “cerros” incríveis e pousar os olhos, todo o tempo, em árvores, flores, vulcões e águas deixou marcas profundas em mim, ainda que em tão pouco pouco de contato. Tenho certeza de que a epifania se deu em seu três estados. Foi uma epifania sublimatória (sublimação do ser/existir), libertária (quebra de paradigmas cristalizados) e de encantamento (natureza artística). Talvez por isso tenha sido tão intensa… E, como acredito que doses homeopáticas sejam muito melhores para desmembrar toda essa visão, contarei aos poucos essa experiência, com o antes de chegar à Patagônia (em Santiago do Chile), durante a travessia da Cordilheira, a visão do campanário e a volta para a realidade em Buenos Aires.

Caro leitor, você já teve uma sensação assim? Como foi? Ele se desfez ou se sedimentou na alma?

Lago Llanquihue e vulcão Osorno - Puerto Varas/Chile
Desejos, Percepções

Livros e sonhos alados

Há épocas em que os sonhos ganham asas. É como se elas tivessem (re)nascido, depois de terem sido podadas ou terem perdido o viço. Asas que não se importam com o que os outros dizem (outro dia ouvi: “vou morrer sem entender isso”… pena… :(), com o que esperam delas, com o que querem obrigá-las a fazer ou ser. Essas são asas livres e esse é o melhor estado que alguém pode estar. É muito bom estudar, é vital ler, é primordial respirar, é uma nova experiência compor quadros visuais por meio de lentes, é maravilhoso criar, é um exercício usar as mãos para fazer suas coisas, é um alívio dizer “não”, é prazeroso ajudar, é engrandecedor trocar ideias e experiências, é certo afastar-se de uns e outros, é acolhedor ter boas lembranças, é esperançoso seguir adiante e planejar o futuro… E tudo isso só é possível, quando há asas que ajudam a sentir tudo mais leve. E feliz.

Eu voltei, depois de um período de intensa reflexão interna.

E nada melhor do que um vídeo, enviado pela querida Lenice, para mostrar toda a beleza, a sensibilidade e o alívio desse momento de alfabetização emocional.

Desejos, Percepções

Leve, produtivo e feliz

Depois de passar quase 15 dias descansando o corpo, a alma, os olhos e o coração, percebo que começou 2012 e que está tudo mais fácil para pensar nesse ano que se inicia. O Ano Novo é agora para mim, pois combina com a alma renovada. Foi então que me veio essa tríade imprescindível para a minha vida: leveza, produtividade e felicidade.

Quero ver e viver a vida de maneira mais leve, sem querer ter as certezas e fazer justiça com tudo.

Quero perceber um ano produtivo para mim: em conhecimento, em amizades, em conquistas pessoais.

Quero sentir-me feliz mais vezes, simplesmente por respirar.

Para isso, farei com que o trabalho seja só trabalho (afinal, ele é só isso, não?) e termine junto com o expediente. Sei que para professor isso é quase impossível, mas me empenharei nisso este ano. Principalmente, no que se refere a trazer os problemas do trabalho e continuar me aborrecendo por horas a fio pela incompetência alheia.

Quero ficar mais ao ar livre, pois é disso que se nutre a minha alma: verde, ar e vida. Caminhada, patins e, oxalá, bike.

Vou adotar a política do MENOS É MAIS para tudo. Falar menos, opinar menos, só responder aquilo que me for perguntado (chega da mania besta de tentar consertar o mundo) e, principalmente, emprestar menos meus ouvidos para as lamentações alheias. Isso mesmo, nada de falação na minha orelha. Na verdade, estou cansada de só ouvir por infindáveis horas as lamúrias alheias. No último ano, prestei-me a esse papel diversas vezes e, em duas delas, fiquei muito mal por semanas por remoer os problemas de quem não tem a mínima consideração por mim. Afinal, só servi de depositária de palavras, logo não era um diálogo o que as pessoas queriam.

Dizer NÃO: bem redondo e mais vezes. Sem culpa ou remorso.

Dedicar-me a meus projetos autorais: patchwork, fotografia, diplomacia e/ou doutorado, línguas, literatura, América Latina…

Agradecer a cada dia pelo sol, pela chuva, pela saúde e pela vida.

Lembrar-me sempre e tanto de olhar com descoberta e surpreender-me a cada dia como se “nascera deveras”.  

Resumindo: um ano cheio de boas intenções. Okay, sei que o inferno está cheio delas, mas as minhas serão acompanhadas de ações.