Pequena vitória ciclística

Não é uma “ideia fixa” nos moldes machadianos, mas vou falar de novo de bicicleta, enquanto as postagens sobre outros assuntos continuam no rascunho (tenho rascunhos de 2010, só pra dar uma ideia do que eu digo!) e o acontecimento ainda está dentro do mês.

A condição que me impus para a vinda da Nina (minha Caloi City Tour) era a de utilizá-la com frequência, então eu estabeleci a meta de andar 100km por mês. Quem anda de bicicleta sabe que esse número é ridiculamente baixo, mas para mim equivale a um Tour de France, tamanha a dificuldade que enfrento para conseguir me dar esse presente. Mas, isso é tema pra outro post.

Aliada a essa meta, eu tinha também o desafio de aprender a pedalar pela cidade, afinal eu era ciclista de quarteirão em bairro residencial da periferia. Mesmo com a companhia do meu bike anjo (oi, Hermes!) e com todas as instruções dele, eu tive de me esforçar bastante para não ter medo e entender meus deveres e direitos utilizando esse meio de locomoção, quando comecei a circular pela cidade. Do meu aprendizado, no “estágio supervisionado”, ficaram os seguintes itens:

1- Nunca andar pela calçada nem na contramão. A bicicleta segue o fluxo dos carros e calçada é o local do pedestre. E a lei é clara em dizer que o veículo maior PROTEGE o menor e todos protegem o pedestre. Curioso como desde sempre, a “lei da selva” é inversamente proporcional e dita que o maior INTIMIDA o menor e o pedestre que se salve, se puder (eu, por exemplo, quando criança, tive uma fratura tripla no tornozelo, por ter sido atropelada em cima da calçada).

2- Sempre usar os equipamentos de segurança: capacete, iluminação dianteira e traseira. Além de ter sempre um kit de ferramentas e remendo (confesso que ainda não aprendi a lidar com um pneu furado, mas o kit está lá!).

3- Eu devo e posso ocupar a faixa da direita (não na guia, local mais perigoso e propenso a acidentes), de forma assertiva, com atenção redobrada para as investidas dos carros. Interessante que quanto melhor a gente ocupa esse espaço, menos chance do carro dar as perigosas fechadas.

4- Não usar fone de ouvido ou celular durante o pedal (risco alto, proibido e desnecessário) e sempre sinalizar as conversões com o braço.

5- O ciclista deve circular pela ciclovia, quando ela existir, mas pode optar pela via com os carros, caso haja problemas na circulação da ciclovia, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro. Caso aconteça de um ciclista estar na via em lugares em que há ciclovia, pode acreditar que houve uma ponderação para isso: buracos; segurança; necessidade de fazer alguma conversão logo a frente; fluxo grande de pedestres na ciclovia; fluxo grande de pessoas em ritmo de passeio (menos de 20km/h) e/ou com variados meios de transporte diferentes e que deixam o trecho de ciclovia inseguro; necessidade de andar em uma velocidade acima da permitida na ciclovia etc… No trânsito, esses tipos de ponderação sempre ocorrem, quer estejamos no papel do pedestre (quando opta por andar na rua ou atravessar num local sem faixa) ou de motorista (passar no farol vermelho de madrugada num local perigoso, por exemplo)… 😉

Estou contando tudo isso para mencionar a minha pequena vitória na última sexta-feira, dia 18. Eu fui, com a Nina, a um evento no Sesc Pinheiros. Sozinha, com ameaça de chuva e à noite. Tive muito mais coragem do que imaginei que teria, na verdade ela simplesmente surgiu durante o pedal (sim, a vontade de chegar lá para assistir à mesa-redonda de poesia marginal feminina era muito grande!) que foi um marco para mim.

Na ida, fui pelo mesmo caminho que já estou acostumada: Berrini na faixa da direita. Pela primeira vez, talvez porque estivesse sozinha, um cara de um carro incomodou-se demais com a minha presença (detalhe, eu estava sozinha na direita, ele estava na faixa da esquerda, sozinho também) e ficou gritando “Moça, vai pra ciclovia!”. Passei mentalmente todo um checklist da minha situação: capacete, luzes acesas, pista livre, ocupação correta da pista, ciclovia cheia de bikes amarelas e patinetes, chuva no meu encalço, velocidade de 31km/h. Logo que ele não podia me mandar pro fogão mesmo (ir, pra algum lugar, só se for pra ser “gauche na vida”), pedalei ainda mais forte, passei por ele no semáforo e continuei meu caminho, pois o tempo urgia e as gotas já estavam começando a cair. Ao desencanar dos gritos, perdi-o de vista e VRUMMMMMMMMMMMMMMM.

Estava muito quente, lá pelos lados do Shopping Iguatemi as poucas gotas já haviam cessado, a ciclovia estava menos tumultuada e o destino quase chegando. Deixei a Nina no bicicletário do Sesc, tranquei-a, tirei as luzes, a água, o velocímetro digital, verifiquei tudo e corri pro evento (ritual básico). Sim, eu fiquei suada, mas como era na praça externa, logo o ventinho da noite me refrescou. Sentei, fiquei segurando a mochila molhada de suor, o capacete e sem conseguir tirar um sorriso idiota do rosto, estava lá pegado no meu rosto e não saía!

O evento acabou tarde: 22h30 e eu tinha de fazer o caminho de volta. Satisfação 1: conseguir subir a rampa do estacionamento pedalando. É muito inclinada, muito mesmo, e eu consegui. Satisfação 2: fazer o caminho de volta em segurança e sem esmorecer as pernas para conseguir chegar. No trajeto, ciclovia já quase vazia, nenhuma garota no caminho de volta.

Se eu senti medo? Até senti, principalmente no trecho da ciclovia que sai da Rua Funchal, atravessa a Bandeirantes para entrar na Berrini. Lugar sinistro e que eu SEMPRE faço pela rua. No entanto, para minha alegria, não fiquei presa nisso, fui sentindo uma sensação boa de liberdade e atitude. Confesso que cheguei a sorrir me achando a Lara Croft na cena inicial do novo Tomb Raider (hummm… gostaram da referência de cultura de massa?).

Claro que só faltava eu ser a Lara Croft, ter e saber andar numa bike fixa, ser courier em Londres, estar na disputa da raposa ao som de “Powerz” de Avelino e remixado pelo Junkie XL (ah, Google e Hermespidia). Quase nada de diferença, mas o sorriso no rosto de satisfação era o mesmo! Se estiver preparado para assistir a uma cena de ciclismo urbano e selvagem, é só dar o play na cena mencionada!

O fato é que esse acontecimento relativamente banal me fez sorrir e manter o sorriso, me fez sentir a liberdade e a coragem, me fez sentir o coração mais leve… O coração leve, as pernas firmes, o sorriso no rosto, a cabeça nas nuvens e, por esses instantes, cheguei a sentir a leveza daquele que supera todos os seus problemas, todas as contendas emocionais e dá um basta naquilo que não serve mais. É só gratidão que chama isso tudo, certeza.

“Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.”

 

If you could go back in time…

After watching “Back to the Future” everybody dreams about changing something in the past, maybe this is an unconscious coletive wish.

The reason why I would change this part of the history is because nowadays I know the loss to everyone. I carried out this: to prevent Prestes Maia from becoming the mayor of São Paulo in 1938, when he implemented the road system in the city. This system was designed to favor cars, he opted for the multinational automotive companies and the real estate market. Both were benefited, besides that politicians and entrepreneurs made a profit.

If he had implemented his plan (Avenues Plan) and had also privileged the river system first, the second railway road system and only then the road system, the paulistano citizen wouldn´t have, among other problems, the terrible and seemingly unsolvable current traffic problem.

If I had power to change this specific portion of the past, I would do this as the intelligent and crazy scientist Doc Brown and how the brave and young Marty McFly.

Fiz esse texto como exercício para a prova de inglês: eu tentei usar a forma condicional, voz passiva, algumas palavras que precisam de preposições específicas, recurso de ênfase e “phrasal verbs”…

Fica a pergunta: o que você mudaria se pudesse voltar no tempo?

 

Walking Tour: pauliceia da garoa desvairada

Praça da Sé, com o Marco Zero e a Catedral Metropolitana; Palácio da Justiça; Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal; Solar da Marquesa + Museu da Cidade de São Paulo + Casa Nº 1/Casa da Imagem; Pateo do Colégio; Centro Cultural do Banco do Brasil; Praça Antonio Prado; Avenida São João; Praça das Artes, Largo do Payssandu + Igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos + Ponto Chic; Galeria do Rock; Biblioteca Mário de Andrade; Terraço Itália; Praça da República. É uma caminhada que não cansa os pés nem os olhos nem o coração.

É a terceira vez que circulo pelo centro para fotografar e a sensação de fazer isso é sempre incrível. Não é um amor desmedido e sem temor, mas também não é o descaso nem o asco que normalmente acompanham quer que se seja, quando o centro histórico é mencionado. É um afeto que se tem construído aos poucos e muito bem alicerçado.

É um querer lembrar de frases em Tupi ao sentar no jardim jesuíta, é querer saber mais da marquesa que não deixou vestígios em sua própria casa, é entender e vivenciar os triângulos que formam os caminhos do centro, é surpreender-se com o centro velho e o centro novo (que já é velho há muito tempo), é querer enxergar os rios que rolam por debaixo de nossos pés, é tentar visualizar o Beco do Pinto em funcionamento, é desejar ardentemente que aquele lugar voltasse a ter a vida pulsando de um século atrás, é olhar para toda aquela gente ainda mais abandonada que o centro e sentir o coração pulsar de humanidade (sim, toda aquela gente não é a escória nem a sujeira do centro, ao contrário do que muitos pensam), é sentir a pauliceia pulsando por debaixo de tudo aquilo e ter ouvidos para escutar a poesia que ainda persiste, é notar o quanto o gestor da cidade não tem nada a ver com a cidade… (ops, não resisti, mas essa percepção foi a pura verdade!)